| Diário
de Petrópolis. 01/05/2004.
A mulher murcha com
a idade? É comum escutarmos reclamações
de mulheres que têm medo do envelhecer. Baseado em vários
trabalhos científicos, o corpo fundamenta-se em processos
cíclicos de declínio e ascensão. São
lados de uma mesma moeda. Seríamos os mesmos se não
fosse o processo de envelhecer. Ninguém suportaria
a repetição de ser a mesma pessoa sempre. Então,
podemos dizer que a mulher floresce com a idade. Ela descobre
novas formas de ser e de viver com o próprio envelhecimento.
Quando pergunto a algumas mulheres se querem retornar no tempo,
elas dizem que não, mas gostariam de ter um corpo mais
jovem, "firme", sem celulite, estrias, etc. Tudo
por pura convenção social e cultural. Existe
um trabalho interessante de um americano chamado McLean, que
pesquisou 242 mulheres que variavam entre 20 e 89 anos de
idade, todas independentes e ativas. No grupo das mulheres
mais jovens (20-29 anos), foi observado maior insatisfação
com seus corpos do que no grupo das mulheres mais velhas (70-89
anos). Contudo, ele concluiu que a insatisfação
corporal não estava significativamente associada à
idade e sim à inabilidade dessas mulheres alcançarem
o objetivo desejado de uma "figura ideal". A satisfação
corporal vista pelo grupo das mulheres mais velhas estava
relacionada com a capacidade de continuarem participando ativamente
na comunidade.
O envelhecimento torna a mulher guardiã
de seu tempo, mais coerente nas escolhas, serena e pacífica
nas decisões. A tendência da mulher madura é
buscar a justiça pela expressão de sua verdade.
As mulheres mais velhas conseguem transformar o destino dos
mais jovens. Elas são verdadeiramente curadoras em
seus gestos.
Vocês já prestaram atenção
o quanto o "colo de mãe" é transformador?
Quando criança, sempre escutava: "mãe só
tem uma". Quando minha mãe faleceu perdi o referencial
materno. Todos os homens têm dentro de si um referencial
materno muito forte. Vivemos em busca da relação
com o nosso lado feminino, intuitivo, sensível, poético,
espiritual. Enquanto a mulher, também busca dentro
de si um referencial masculino. Todos nós, humanos,
temos pólos que se complementam. Vivemos em busca de
um equilíbrio. O que é o verdadeiro equilíbrio?
A Paz: movimento sutil e conciliatório. São
os lados masculino e feminino se entrecruzando sem conflitos.
Onde não há conflito surge a felicidade.
Vivemos um momento de grandes conflitos.
O pólo masculino, dominador, expansivo, analítico,
racional, competitivo se sobrepõe ao pólo feminino,
parceiro, conservador, contextual, poético, intuitivo.
Estamos longe do equilíbrio, porque perdemos o significado
da paz. Ainda lutamos pela paz. Enquanto houver luta não
há paz. Estar em paz é estar nos braços
de quem nos ama e amamos.
No livro "Quem somos nós? - O enigma do corpo",
escrevo:
"Oxalá ter um colo
para não precisar endurecer para a vida. No colo de
mãe o choro da tristeza é amparado, não
precisamos sentir vergonha. Como nos afastamos de nós
mesmos, ficamos adultos e deixamos tudo para trás.
Será que sentir a criança impede de estarmos
no mundo da maturidade? Claro que não, quando temos
um "colo de mãe". Quando podemos experimentar
o "colo de mãe", a criança retorna,
e sentimos a eternidade no momento.".
Eu não tenho mais a minha
mãe, ela ficou na lembrança de meu próprio
tempo, mas ainda consigo ter um "colo de mãe",
pois as mulheres possuem o arquétipo de mãe.
Todo arquétipo feminino é uma possibilidade
de doação. A lua é menstrual. O fim é
a certeza do recomeço. A mulher não é
meio, como também não é fim. A mulher
é o princípio de tudo. A despedida de uma mulher
é como o pôr-da-lua; saudade mansa, beleza cintilante,
sentimento latente. A mulher se despede para ser mãe,
retorna ao lar para dividir o fruto com o parceiro que precisa
aprender o cuidar, pois a mãe necessita voltar a ser
mulher. Precisa ser amada como mulher, ainda que seja mãe.
Portanto, não estou confundindo os papéis de
mãe e mulher. Elas são tudo isso. Por isso,
elas são fantásticas e enigmáticas. A
mulher é um contínuo paradoxo.
Nesse sentido, posso ter um "colo de mãe"
no abraço de minha filha, no beijo de minha esposa,
no abraço de minhas amigas, no toque de minhas pacientes,
no canto dos pássaros, na brisa fria da tarde de outono.
Quem sabe no dia das mães serei tocado pela brisa fria
da tarde de domingo? Nesta brisa poderei sentir o toque de
minha mãe como ato milagroso e misericordioso da mãe
natureza que não nos abandona. 
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