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Observatório da Imprensa. Nº 348 # 27/09/2005 # ISSN 1519-7670. Disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=348OFC003. Publicado em 27/09/2005.

Além da propaganda e do espetáculo

A escritora Anne Rice descreveu em sua obra a agonia da vida eterna, o pesadelo do abandono, o terror da vida-em-morte, o dissabor da solidão. Para quem não se lembra, Rice é autora do livro “entrevista com o vampiro” que se tornou filme homônimo. Em toda a obra ela discute sobre vida e morte. Por que milhões de leitores gostam da obra de Rice? Porque somos constituídos pela dialética do viver e morrer.
Os vampiros passam pelo lamento da não-existência porque ficam. Os viventes, por outro lado, fazem passagem. A água que escoa não sofre resistência. Isso é claro como cristal. É doloroso ficar para trás. Ninguém aceita permanecer, mesmo que recuse a morte. Felizmente ainda é possível contar com a sabedoria da natureza. Ou seja, todo vivente envelhece e morre.
É um alívio saber que fazemos passagem. Viver e envelhecer são processos indissociáveis. Se viver é envelhecer, e morrer é inevitável, façamos logo as bagagens. Por que não? Vários ensinamentos orientais discorrem sobre o tema, a sabedoria do desprendimento.
A cada dia morremos um pouco. Morreremos até chegar o dia em que vamos acabar de morrer. Morrer é se desprender, processo de soltura e de entrega.

Antigamente os velórios eram feitos em casa, as crianças brincavam debaixo dos caixões que ficavam em cima da mesa da sala. Lembro-me de brincar de pique com os primos no velório de meu avô, e da tia-avó. Tudo era permitido, até piadas sujas eram contadas por velhas desbocadas. Os homens se empanturravam de pão com cachaça nas noites frias. A dor da perda deixava lugar para o reencontro da família: irmãos que não se falavam voltavam a se encarar, pais se envolviam na dor dos filhos ausentes, e tudo era resolvido porque a morte revelava a importância do viver e compartilhar.
A morte está se tornando asséptica a ponto de deixarmos de acreditar em nossa própria morte. A morte higiênica se tornou aceitável, porque ela é menos dolorosa. Se o envelhecimento revela proximidade da morte – a pessoa ao nascer já é velha o suficiente para morrer – então ele deve ser evitado.
Em nossa cultura de consumo, os sinais físicos de envelhecimento se tornaram sinônimo de desmazelo. A mídia corrobora essa idéia, recusa o envelhecimento e a morte de modo nunca antes visto. As pessoas adoram as propagandas e matérias jornalísticas que prometem o fim das rugas, o escurecimento dos cabelos, receitas para aumentar a longevidade. O evangelho da sempiterna juventude nunca foi tão pregado, e as propagandas se esfalfam na superação da criatividade. Utilizam nomenclaturas de difíceis pronúncias para enaltecer a alma do negócio.
Ninguém quer ser julgado por ser velho. Então, não raro, buscam se esconder por trás de Masque Anti-Age, a base de complexos vitamínicos estabilizados, extrato de soja, alistina de crustáceos, polifenóis antioxidantes, hexapeptídeos, silicium, sintetizadores de colágeno.
Vivemos a guerra contra os radicais livres sem ao menos saber se essa teoria é verossímil. Se ainda desconhecemos cientificamente como e por que envelhecemos, como podemos ter as “terapias antienvelhecimento”? Grandes nomes da Biogerontologia (ciência que estuda o envelhecimento biológico) como Leonardo Hayflick, Bruce A Carnes e S. Jay Olshansky se juntaram para escrever um artigo na Scientific American de Junho de 2002 (“No truth to the fontain of youth”), em que alertam a população americana sobre o real valor dos produtos antienvelhecimento. No artigo eles concluem:

“nenhuma intervenção foi ainda provada ser capaz de diminuir, parar ou reverter o envelhecimento humano (...) o mercado dos cosméticos é muito rico em produtos sem qualquer valor terapêutico ou embasamento científico (...) vários estudos foram realizados em laboratório e nada foi comprovado quanto à ação dos antioxidantes sobre o processo de envelhecimento”.

A mídia é formada por símbolos, tráfego de imagens. No mundo virtual tudo é possível. Contudo, o fascínio da vida está além do espetáculo das imagens. Os produtos e as novidades do mercado nos incutem a idéia de uma juventude imagética. Sem dúvida, podemos ficar mais bonitos, mas não podemos regressar no tempo. A palavra rejuvenescer só é verdadeira nos contos de fadas, na ficção, nos filmes de Hollywood.
O escritor Nanao Sakaki nos dá uma excelente receita antienvelhecimento:
Para ficar jovem,
Para salvar o mundo,
Quebre o espelho.


Sou a favor da vida, por isso sou a favor do envelhecimento. O que é vivo tem movimento, é instável. O que é morto é estável, equilibrado. Nada se cria na estabilidade. A criatividade está na desordem, na obscuridade, nas brumas do incerto. Sem expectativas posso ser diferente, tenho possibilidades de reescrever minha história, porque nada sei. Somos seres dinâmicos e portanto somos mutáveis o tempo todo.
Para que haja o novo tem de haver a morte. Por isso, carregamos o velho e o novo dentro de nós. A idade cronológica é só uma sombra na parede da caverna. Vivemos e morremos, morremos e vivemos em nosso mito pessoal. Como dizia Heráclito de Éfeso (7 séc. a C.): “Vive-se da morte, morre-se da vida”.

Enfim, as imagens antienvelhecimento soltas na mídia podem tentar nos incutir a idéia da juventude sempiterna, porém é só uma idéia. Nós temos o livre-arbítrio para aceitar a informação e refletir sobre ela. Portanto, o que não envelhece morre. Ninguém nunca terá certeza do amanhã.
Como Olavo Bilac, no trecho do poema “velhas árvores”, diz:

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem.

Por Pedro Paulo Monteiro


 


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