| Portal
da Fisioterapia. Disponível em: http://www.portaldafisioterapia.com.br/site/,
publicado em 15 de novembro de 2005.
| Preâmbulo:
Um pouco de pensamento |
Gostaria inicialmente de agradecer a Luna Petermann
pelo convite para estar aqui. Quando foi minha aluna eu dizia: “você,
com este nome, vai longe”. O nome dela diz muito porque não
é só um nome. Ela sempre esteve “presente”
durante a sua formação. Não sei se vocês
sabem, mas para haver êxito é preciso estar dentro
do corpo. Sem corpo não há aprendizado, crescimento,
evolução. Infelizmente é comum o convite para
estarmos fora do corpo. Estar dentro dele só se houver presença
no presente. Parece difícil, e é mesmo. Não
basta sentir o corpo em contato com a cadeira, é preciso
saber que existe alguém-corpo sentado aqui e agora na cadeira.
É exatamente sobre esses temas que quero estar aqui escrevendo,
informalmente, para vocês. Assim, conhecê-los será
fundamental. Quem escreve quer falar, quem lê pode ser apenas
um voyeur, mas não deixar rastros é recusar o envolvimento.
Todos vivem sob muita pressão, é preciso estudar,
trabalhar, sofrer, viver, e ainda buscar sentido nisso tudo. Sem
dúvida, é mais fácil não enxergar as
vicissitudes de nossos “pacientes”, as dificuldades
financeiras, a crise geral do mundo. Sendo a melhor alternativa
a descorporificação. Ficar distante sempre foi mais
seguro.
Envolvimento e a Pele
Atualmente, século XXI, ainda se aprende
na faculdade que “não deve haver envolvimento”.
Sou formado no século passado, e tive um professor que dizia:
“A pessoa que sofre não é você, portanto
não se envolva. Você tem de estar lúcido para
ser melhor”. O equívoco dele talvez fosse desconhecer
a diferença entre se envolver e se absorver. São coisas
bastante diferentes. Nós, fisioterapeutas, não temos
como não nos envolver, porque já estamos envolvidos
assim que entramos em con-tato com a pele do outro.
O verbo “envolver” vem do latim involvi
que significa “rolar sobre”. O que torna o fisioterapeuta
tão especial? O envolvimento consentido. A pele da mão
do profissional rola sobre a pele do doente. De modo sucinto, a
ação de rolar pele sobre pele gera alívio e
organização da estrutura corporal. Infelizmente, muitos
fisioterapeutas continuam a ser máquinas programadas a calibrar
máquinas. É sobre isso e muito mais que quero conversar
com vocês. Durante muito tempo em minha vida profissional
tive o privilégio de me deparar com situações
difíceis, grotescas, cruéis, insensíveis. Digo
privilégio porque é importante estar com a dor, sofrimento
e morte do outro sem ser covarde para virar-lhes as costas. Na vida
profissional nada é fácil, porque o humano é
complexo.
A Prática Terapêutica
Minha prática sempre esteve voltada aos
excluídos; pobres, velhas e hansenianos. Do mesmo modo, tive
a prerrogativa de estar dentro de universidades, como professor,
palestrante, supervisor de estágio. Isso me ofertou espaços
de reflexão acerca de quem é quem dentro desse cenário
tão absurdo que é a educação.
Quero também explicar por que uso a palavra “absurdo”,
pois ela me dá a capacidade de afirmar que dentro das instituições
de ensino, o humano é visto pela ótica da lógica,
enquanto ser humano é ser totalmente ilógico, estranho,
indeterminado, imprevisível.
Também tive a oportunidade de aprender a ser terapeuta (mais
complexo do que ser fisioterapeuta, psicoterapeuta, médico
etc.).
A terapia corporal, cujo entendimento vai além da lógica
linear do corpo máquina, compreende a estrutura corporal
como corpo-sujeito, um corpo vivo. Para conhecer o vivente tive
de estudar filosofia, psicologia, física quântica,
sociologia, religião, antropologia, mística, literatura
e poesia.
Os Livros
O caminho não se encerra no estudo, mas,
principalmente, na boa observação. Isto é,
o que se passa do lado de fora compreende o que ocorre do lado de
dentro. Foi assim que resolvi pesquisar para o meu primeiro livro:
ENVELHECER: HISTÓRIAS, ENCONTROS E TRANSFORMAÇÕES.
Durante anos carreguei a dúvida; o que as pessoas com as
quais tive relação terapêutica queriam me dizer?
Dois anos consecutivos pesquisei três mulheres acima de 70
anos, e consegui algumas respostas. A principal foi:
Somos fragmentos de histórias,
que só pela relação com outro humano
é possível compreender.
Quando abrimos a cortina de um questionamento
outros surgem. Assim fui levado a querer responder outras perguntas.
A partir daí escrevi um projeto de pesquisa para o doutorado
em Biosemiótica. O mesmo projeto foi enviado para a minha
editora, e ela me retornou com um contrato para o novo livro, publicado
ano passado: QUEM SOMOS NÓS? O ENIGMA DO CORPO.
O livro foi uma satisfação, pois ele me abriu portas
para outras áreas do saber.
Como nada termina enquanto estivermos na estrada
da vida, estou em processo de finalização do meu novo
livro sobre a mente humana, pois creio que o corpo é também
um reflexo, uma imagem, uma travessia de aprendizado. Todavia, não
basta crer, é preciso fundamentar a crença.
Enfim, aqui estou para trocar informações,
pois como a internet é um espaço democrático
acredito que este será um bom espaço para todos nós.
Até breve,
Por Pedro Paulo Monteiro
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