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Diário
de Petrópolis -28 de setembro de 2003
| Sensações
Muito Mais Solidárias |
Hoje se comemora o dia do idoso. O Dia
Nacional do Idoso foi estabelecido em 1999 pela Comissão
de Educação do Senado Federal e serve para refletir
a respeito da situação do idoso no País,
seus direitos e dificuldades.
Sendo assim, devemos aqui enaltecer as
pessoas que durante anos conseguiram formar uma história.
O importante não é o tamanho dessa história,
e sim como ela foi constituída. Uma história
de lutas e desistências, de dor e de prazer, de amor
e de medo, de conquistas e perdas. Somos feitos de tudo isso.
São as várias situações vivenciadas
que nos dá forma e conteúdo. Nunca seremos vazios,
porque somos preenchidos pelas histórias vividas.
Nasci com a esperança cravada na
carne. Não sei explicar, mas acredito no processo da
vida. Enalteço o envelhecer porque é um processo
de viver. O que nos resta é apenas viver intensamente
e nada mais.
Entretanto, viver não é tarefa fácil.
Viver é um desafio permanente. E quanto mais envelhecemos,
mais somos instigados a colocar em prática aquilo que
aprendemos no passado. Estamos sendo testados constantemente.
Somos convidados a expressar os nossos sentimentos, mostrando
quem somos.
Costumo dizer, se a raiva e os sentimentos reprimidos saíssem
na urina não haveria tantas tensões musculares
e doenças na velhice. A expressão dos sentimentos
é sempre salutar, principalmente quando são
compreendidos e respeitados pelos outros.
Infelizmente a expressão dos mais
velhos nem sempre é bem-vinda. Mesmo dentro de sua
própria família. O que é dito não
é ouvido, o que é ouvido não é
levado em consideração, e aquilo que é
levado em consideração, às vezes, é
motivo de mais conflitos. Todo ruído interfere na comunicação.
As conflituosas relações familiares foram descritas
magistralmente por Clarice Lispector em seus contos. O meu
preferido é "Feliz Aniversário", que
gostaria de comentar aqui.
Neste conto, Clarice descortina a face
opaca de uma relação familiar corrompida. Ela
consegue descrever em linhas consistentes, sem pestanejar,
a festa de aniversário de 89 anos de Anita: "uma
velha grande, magra, imponente e morena", posta à
cabeceira da mesa, aguardando os familiares que vinham apenas
para confirmar alguns laços de família. As pessoas
não tinham interesses nos 89 anos da velha mulher,
mesmo porque a festa de aniversário era mais uma justificação
de sua filha Zilda - única mulher entre seus seis irmãos
homens - do que uma comemoração.
Para Anita era difícil vencer os
anos sem poder pertencê-los. Aquelas pessoas não
mais pertenciam ao seu tempo. Quem tinha pertencido já
havia partido. Ela apenas estava aprisionada em seu próprio
tempo em uma postura de espera. Ali, o máximo que podia
fazer era contemplar o nada do passado, o nada do presente
e a possibilidade do nada do futuro.
Todos os convidados se punham a comer os
sanduíches de presunto e croquetes gordurosos, e a
beber o ponche, servido por Zilda que suava como uma escrava
sem ter a ajuda das cunhadas.
A dona da casa fazia tudo sozinha, sem nenhum elogio por seu
esforço em arrumar a festa com tanto cuidado. Angustiada
em agradar, "pés exaustos e coração
revoltado", colocava-se a esperar o momento daquilo tudo
terminar.
Finalmente cantam os parabéns, e
uma das cunhadas diz que deve ser a aniversariante a cortar
o bolo. Todos curiosos em ver Anita cortar o bolo (talvez
não esperassem ver uma mulher "naquela idade"
fazer tanto), vêem mais do que uma talhada no bolo.
Anita, mãe de uma família
repleta de cinismo, sabia que tinha dado à luz a seres
sem austeridade e fracos, e isso lhe feria. Impotente à
cadeira, a única forma de expressão era cuspir
no chão, como fazem os valentes nos confrontos.
Sua filha ficara consternada e envergonhada,
sabendo que os outros se entreolhavam como se coubesse a ela
dar a devida educação à velha. Angustiada
repreendeu a mãe para que todos ouvissem, como uma
confirmação de que ela fazia "bem"
o seu trabalho de filha.
Todos acharam que aquilo era conduta de
criança. Como diz o tosco ditado: Todo velho volta
a ser criança.
A situação continuou, porque a raiva de Anita
a sufocava. Via na família a sua própria falha,
e se cobrava pelos erros cometidos.
Como podemos passar aos filhos aquilo que
não somos? Ou eles são aquilo que não
conseguimos enxergar em nós? Quem de fato somos?
Na verdade, não se erra individualmente,
a falha encontra-se nas ligações entre as pessoas
que trafegam na relação familiar. E quando há
ruído não há comunicação
eficiente.
Anita pede um copo de vinho e explode amarga, desferindo golpes
ofensivos: "Que o diabo vos carregue, corja de maricas,
cornos e vagabundas!".
A partir daí a festa não mais se sustenta. Aos
poucos, as pessoas, com seus estômagos cheios de porcarias,
se levantam e com cautela se despedem.
A mudez de Anita era a sua última
palavra. Parece que consegue vencer: "A aniversariante
recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão
familiar fosse uma armadilha".
Se cada um pudesse, naquele momento, ser transparente, talvez,
acabariam com o ruído da relação. Tudo
poderia se tornar mais claro e verdadeiro. Mas não
conseguiram, e continuaram utilizando os seus conhecidos disfarces.
Algumas pessoas ainda acham que os mais velhos não
percebem as situações. Desse modo, escondem
os fatos, fingem posturas. As pessoas mais velhas vêem
melhor porque a paisagem já é conhecida. Por
exemplo, uma simples mudança do tom de voz da filha
ou filho já pode ser percebida.
O que muitos não sabem é que o processo de envelhecimento
faz alguns sentidos alterarem, tornando as sensações
remanescentes mais solidárias. Por isso, os mais velhos
enxergam melhor, não com os olhos especificamente,
mas com todos os outros sentidos juntos. Quanto mais velhos,
mais andamos e mais cansados ficamos de tantas paisagens repetidas.
Os velhos enxergam até demais, só que não
querem as recidivas dos fatos, estão cansados de repisarem
no conhecido. Eles passam a ser simples em suas escolhas externas,
ao mesmo tempo em que aumentam a sua complexidade existencial
interna.
Quanto mais velhos, mais se torna necessário deixar
as malas pesadas do passado para continuar a viagem mais livremente.
É por isso que muitos preferem ficar calados, como
Anita no conto de Clarice Lispector.
O que Anita mais queria era ficar como
as pedras. Apenas esperar o calor de um bom raio de sol tocar
o seu corpo, mantendo-o aquecido, a fim de facilitar na travessia
do tempo e nada mais.
Hoje é de fato um bom dia
para reflexão. Precisamos pensar o envelhecimento como
um processo circunscrito a todos nós. Estamos mais
velhos a cada momento, seja na batida do coração,
na brisa tocando a pele, na flor brotando na primavera, no
sentimento de uma simples lembrança.

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