|
Diário
de Petrópolis. 11/05/2003
| A
Importância de uma História de Vida |
Atravessamos um momento crítico
de nossa época. Passamos por um tempo cujo principal
valor é concedido à informação.
Estamos imersos no tempo da informação que é
gerada, captada e transmitida. Entretanto, a informação
é apenas parte de um processo muito maior de construção
de nossa história. Informar não é o mesmo
que construir conhecimento. O conhecimento está além
da própria fronteira do saber. Ele é o significado
implícito do ser. Por esse motivo, o processo de conhecer
não se perfaz em etapas estanques, mas se constrói,
desconstrói e se reconstrói na passagem da temporalidade,
formando a nossa história de vida. Esta história,
por assim dizer, deve ser valorizada, reverenciada, dignificada.
Cada um de nós possui um tempo subjetivo que constitui
uma narrativa irredutível com semblantes especiais
que necessitam ser conhecidas. Por isso, quanto mais velhos
nos tornamos mais acontecimentos e fragmentos temos para somar
ao nosso vivido. Não desvalorizemos o nosso vivido
existencial, pois a história é a marca de um
tempo que foi construído por nós mesmos. Virar
as costas para este tempo é virar as costas para nós
mesmos. Ser mais velho é ter mais oportunidade de debruçar
na janela do tempo, verificar o que foi mais essencial na
estrada da vida para, finalmente, optar por trilhas mais significativas.
Não devemos acreditar em um tempo ou época que
tenha sido melhor ou pior. O melhor tempo é o agora
porque é único, repleto de possibilidades de
tornar o destino pessoal diferenciado de tudo aquilo que um
dia pôde ser vivido.
Quanto mais velhos nos tornamos mais
histórias temos para contar. Se alguém disser
que uma história não tem importância,
saiba que isso é uma inverdade. Sempre estaremos interessados
nas histórias porque somos constituídos por
elas. Quando dialogamos contamos histórias, formando
os nossos dramas pessoais, criando os nossos romances, paisagens
cheias de suspenses, com a finalidade de dar movimento à
vida. A vida é dinâmica e não cessa. Somos
proprietários de um tempo e queremos contar aos outros
a respeito dele. Porventura, em nosso íntimo, desejamos
deixar para os outros uma lembrança de nós mesmos,
a fim de continuarmos a fazer parte da história deles
como personagens de um tempo que já se foi. Queremos
permanecer na memória daqueles que ainda continuarão
a trilhar a vida. O que é viver se não podemos
deixar nossos rastros?
Infelizmente, estamos atravessando
um tempo sem sabermos ao certo quem está percorrendo
esse tempo. Estamos limitados pela angústia da informação,
excluindo de forma fria e velada àqueles que possuem
fatos marcantes, histórias deslumbrantes. Nossa cultura
capitalista descarta as histórias em prol de imagens
que nada dizem. A mídia contribui para a alienação,
criando incomunicação e solidão entre
as pessoas, lesando os sentidos sem que saibamos que estamos
sendo mutilados pela arma virtual. O que uma informação
pode oferecer se não conhecemos a nossa própria
história? Simplesmente ficamos perdidos dentro de nós
mesmos.
Por isso a urgência da otimização da memória.
Precisamos conversar, dialogar, respeitar a história
do outro, a fim de proporcionar a ressignificação
da história pessoal. Sempre que houver história,
haverá lembranças. Se assim fizermos, a caminhada
de todos não será em vão.

|