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em 5 de fevereiro de 2006
Há mais mistérios
entre o céu e a terra do que pressupõe a vossa
vã filosofia.
William Shakespeare
Muitos pensam que sentir dor é
apenas um mau funcionamento do organismo. O organismo vivo
não pode funcionar porque não é máquina,
ele não tem engrenagens. O corpo vivo se auto-organiza
para manter sua estrutura íntegra. São aspectos
diferentes. Qualquer analogia com as máquinas é
estar à mercê de equívocos.
O corpo humano pode ser interpretado pelo mecanicismo, sem
conjurar aspectos complexos. Ao me remeter à complexidade
quero afirmar que o corpo é referência relacionada
a uma miríade de outros aspectos.
Infelizmente, muitos fisioterapeutas entendem o corpo pelo
aprendizado da anatomia. Nas faculdades a visão do
corpo morto, inerte, equilibrado, ainda é o meio simples
de explicá-lo. Em contrapartida, o corpo vivo é
dinâmico, incerto, irregular e imprevisível.
Qualquer interpretação é só um
ponto de vista.
Semana passada atendia a um homem de 60 anos com dores na
região lombar, em decorrência de uma espondilolistese
L5, quando ele me disse: “Sinto fortes dores, e mal-estar
nesta região”. Eu perguntei: “você
acha que existe alguém a lhe provocar este mal-estar?”.
Ele não entendeu a pergunta. Então eu pressionei
suavemente a região paravertebral lombar e perguntei:
“quem lhe gera mal-estar?”. Ele, ao sentir uma
forte dor, me respondeu sem pensar: “a minha mulher”.
Chorou copiosamente, e a dor aumentou tanto que não
conseguia se levantar. Após alguns instantes, ele relaxou
e a dor desapareceu. Ficou muito assustado, ele não
sabia como proceder. Não entendeu porque disse aquilo.
Ele se arrependeu, e ao acusar a mulher a culpa tomou posse
do corpo.
Quando me deparei pela primeira vez com um processo como esse
fiquei perplexo, cheguei a achar que tinha poderes sobrenaturais
envolvidos. Achava que as respostas corporais relacionadas
à história individual eram pura magia. O que
eu não compreendia era como isso seria possível,
como o corpo podia ter inteligência. A inteligência
não diz respeito ao cérebro?
Contudo, o tempo passou, e pude vivenciar cada vez mais situações
como essa, e aprender que a mente está em toda parte,
ela não é o cérebro.
Com o tempo aprendi a recusar a ser um fisioterapeuta da máquina,
e pensar em consertar peças danificadas. Assim, tive
de sair do âmbito da medicina (como ciência tradicional
mecanicista), e partir para um novo espaço, o âmbito
do corpo vivo.
Primeiro aspecto relevante foi saber que o corpo como estrutura
em processo contínuo de auto-organização
(para saber mais ler a obra de Humberto Maturana e Francisco
Varela) não possui causa única para um problema.
Pelo fato de o corpo ser inconstante toda perturbação
não tem etiologia determinada. Tudo é questão
de interpretação. Toda interpretação
é feita pelo observador, que a faz pela linha de um
conhecimento específico.
Segundo, o corpo é tão simbólico quanto
material. Isto é, se todos os aspectos de nosso corpo
são percebidos a partir de uma representação
cerebral (homúnculo de Penfield, por exemplo), o corpo
na verdade é interpretado pelo filtro cerebral do sujeito.
Assim, o que sinto e como sinto dependerá da relação
de minha subjetividade para com o meu corpo objetivo.
Terceiro, nossa história está permeada pelas
sensações corporais, pois o corpo é uma
importante referência que temos do mundo. O que vivemos
nada mais é do que aquilo que manifestamos no corpo.
Por assim dizer, ele é o palco de manifestação
de todas as experimentações ao longo do tempo.
A física moderna nos mostra que tempo e espaço
são indissociáveis, um depende do outro para
existir.
Quando o homem se referiu à dor como sendo a sua esposa,
ele na verdade sinalizou o conflito. A dor nada mais era do
que a experiência de anos de pressão emocional.
Se a emoção é uma energia em movimento
expressa pelo corpo não fica difícil entender
o quanto a quinta vértebra não suportou a pressão,
e se deslocou em busca de harmonia.
Se o corpo busca a auto-organização para viver,
busca também a manutenção da estrutura
(sobrevivência). Como ele não sobreviveria tanto
tempo suportando a pressão, resolveu ceder, abandonar
o posicionamento e deslizar (sair) da situação.
Portanto, em um plano simbólico, que não deixa
de ser material, a vértebra passou a significar a representação
dele mesmo que foge – deslizamento (listese) da vértebra
– do conflito com a esposa.
Vivemos em busca da harmonia, porém o nosso corpo apresenta
uma linguagem muito mais complexa do que simplesmente podemos
compreender pela razão. Se existe uma força
inteligente que muda os ciclos de nossa natureza biológica,
sem nos darmos conta, é importante levar em consideração
esses aspectos no momento do atendimento fisioterapêutico.
Essa visão não é simplesmente psicossomática,
mas também somatopsíquico. Porque uma vez que
a pessoa consiga se sentir bem (sem dores) o próprio
modo de conceber os problemas da relação se
torna mais fácil de ser solucionado.
Após a sessão, o meu cliente resolveu fazer
uma viagem com a esposa e tentar se sentir melhor com ela.
Se ele conseguiu não posso afirmar, porém com
certeza ele teve muito mais chances de lograr sucesso.
Finalizando, não considero o corpo e a mente entidades
separadas. O corpo, a meu ver, é a manifestação
mais concebível da mente. E, pegando carona na citação
de William Shakespeare, eu diria que há mais mistérios
entre a mente e o corpo do que pressupõe a vossa vã
filosofia.
Até breve,
Por Pedro Paulo Monteiro

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