| Montanha
do Esquecimento. Verdes Trigos. Disponível em: http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronicaver.asp?
id=657 Publicado em 29/05/2005
Meu pai há muito desistira do sorriso
da família. Homem quieto, cumpridor de suas obras e de seu
tempo. Nada queria anunciar. Pensamentos mudos no canto ficavam.
O sol do trabalho era carquilha de sua história.
Minha mãe os trapos tecia. Era dela a tarefa de conciliar
a gente de casa. Decidia rumos e gestos. Meus irmãos e eu
não tracejávamos uma linha de vida sequer sem os olhos
corroídos dela. Até meu pai não escapava de
sua regência.
Num certo tempo, meu pai decidira subir a alta
montanha para buscar o esquecimento. Tarefa árdua para quem
gostava de tecer lembranças.
A montanha quase tocava o céu. Lugar onde só as nuvens
podiam alcançar.
Construiu para si, durante anos, a certeza daquela viagem. O silêncio
era o mapa, enquanto a memória a dúvida. Munido de
botas firmes e roupas resistentes não pensava em levar mais
nada. Queria estar solto e repleto de si mesmo.
Com os lábios selados para não
assumir saudades, sem peso nas costas, veio se despedir da gente.
Não falou, mas os gestos o traia. O coração
se destroncava ao me ver pequeno. Nunca derreteria a solidez daquela
memória. Sabia que eu não cresceria, não me
conheceria homem, pai, ou mesmo avô. Tudo estava a terminar
no ponto do adeus. Aproximou-se e tocou os lábios em minha
testa, concedendo-me a benção da continuidade.
Minha mãe desaprovava a atitude dele.
Achava ignorância de homem irresponsável. Convicta
de que tudo era “fogo de palha”, não demoraria
muito para ele retornar, arrependido, se desculpando pela atitude
demente. Rogava-lhe praga: “nunca mais quero vê-lo.
Vá e seja infeliz pelo resto da vida!”
Com movimento manso, virou-se em direção
à sombra da montanha que se formava ao longe. O sol caia
por detrás do cume do grande rochedo. Meu peito de criança
escurecia. As pernas perdiam o sentido. Queria acompanhá-lo,
ao mesmo tempo não podia desapontar minha mãe. Estava
cindido pelo conflito da despedida.
Meu pai desapareceu nas sombras da consciência,
mas vivia como personagem de minhas cenas infantis. Ele havia ficado,
mesmo indo. Estava quieto, num dos cantos da lembrança.
Minha mãe irredutível, não
desistia em buscar desculpas pelo sumiço dele. Uma hora dizia
que ele “estava dando um tempo para a cabeça”,
outras eram: “desvio de conduta”, “doença
incurável”, “demência precoce de tanto
pensar calado”.
Parentes, vizinhos, conhecidos, polícia, padre, caçadores
de recompensa. Todos queriam intervir, buscar notícias, fazer
fuxico, alcançar notoriedade pelo resgate de um homem só.
Ninguém conhecia o paradeiro dele. Nenhuma notícia
da presença do homem ausente. Será que havia morrido
de fome? Tornou-se presa fácil de animais selvagens? Se não
havia resquícios, tampouco poderia estar morto. Porventura
estivesse na angústia da fome, necessitado de ajuda.
Já não era tão pequeno quando
decidi partir ao encontro da sorte do encontro. Não desejava
que minha mãe soubesse, apesar de a convicção
de que ela se escondia do não saber das coisas. Ela mesma
facilitava a empreitada. Queria ter coragem, desprender-se, arriscar-se
ao compromisso consigo mesma. Contudo, persistia por trás
da cortina.
Várias vezes subi a montanha, deixando
alimentos sempre no mesmo lugar, longe da chuva e do alcance dos
animais. Quando retornava ao local a comida havia desaparecido,
sem sujeira e sem rastros.
Subir a montanha era espreitar uma paisagem
sem o alcance do olhar. Nunca foi possível vê-lo totalmente.
Apenas as sombras exerciam fascínios. Lá, ele estava
livre da ingratidão e da indiferença.
Sempre que subia a montanha sentia-me abraçado pelo silêncio
afetuoso de meu pai. O céu escuro era mistério aberto
ao pensamento incrédulo em poder revê-lo. Carregava
comigo lembranças que a montanha não dissolvia. Somente
as estrelas eram cúmplices e testemunhas de minha história
sem fim.
Por Pedro Paulo Monteiro

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