| Artigo
publicado no Observatório da Imprensa. Nº 325 # 19/4/2005
# ISSN 1519-7670. Disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=325JD
B013. Publicado em 19/04/2005.
Susan Sontag no livro Sobre fotografia questiona:
"Uma fotógrafa de moda é uma
fabricante de mentira cosmética que mascara as intratáveis
desigualdades de nascimento, de classe e de aparência física?".

Diane Arbus
Mulher mascarada em uma cadeira de rodas - 1970
Acredito que ela já saiba a resposta.
A pergunta instiga nosso intelecto e nos faz refletir acerca da
mentira pela qual costumamos viver. Você já percebeu
que a Revista Nova - revista lida por mulheres na faixa dos 18 e
49 anos - é uma revista que tem sempre como modelo de capa
mulheres jovens (por exemplo, Juliana Paes de 24 anos está
na capa deste mês)? As fotos são bem produzidas trazendo
ao imaginário a idéia de beleza perfeita e juventude
sempiterna.

Quando a imagem é vista,
caso agrade, queremos possuir o que vemos. Então, o cérebro
a apreende. Deixa de existir fora para fazer parte dentro. Ou seja,
do imaginário da pessoa. Por outro lado, recusamos a imagem
que não seja boa aos nossos modelos. E como o nosso modelo
é de juventude e de formas simétricas, nos entediamos
com a nossa própria forma, porque ela não coaduna
com as imagens vendidas nas revistas, nos filmes, na televisão.
Diane Arbus
Homem descansando com a sua mulher em
um campo de nudismo - 1963
Mulheres de 30/40 anos não são
mulheres de 20 anos. São diferentes, com outros projetos
de vida, com corpos modificados pela experiência. Contudo,
a imagem da mídia é poderosa porque vivemos numa cultura
ótica, e ninguém reflete sobre qual imagem será
introjetada, elas simplesmente são apreendidas, levando muitas
mulheres a se sentirem indignas e humilhadas porque envelheceram.
A imagem nunca condiz ao fato. Imagens são estopins aos sonhos,
são esquivamentos ao vivido, tentativas de pleitear outras
realidades.
O tempo flui e somos outros a cada instante.
Sou a favor do envelhecimento porque sou a favor da vida. Trabalhando
há anos com pessoas acima de 60 anos, tive inicialmente o
desafio de ver a beleza da deformidade do corpo no gesto delicado,
no movimento simples. Quando digo “deformidade” refiro-me
principalmente ao desvio da forma dada pelo modelo social. Não
me refiro ao "anormal", mesmo porque não acredito
na anormalidade. Somos e seremos sempre anormais e normais dependendo
do contexto em que estivermos.
Após alguns anos, envelhecendo, fui privilegiado
a não correr atrás de imagens que possam agradar aos
outros. Felizmente, fiquei desiludido com o modelo estanque de beleza.
O belo, para mim, passou a ser o que é pleno em sua singularidade.
Por isso, é interessante conhecer o trabalho de Diane Arbus,
fotógrafa americana, que mostrava, na década de 60
e início da década de 70, a beleza da vida pelo lado
da deformidade, do "esquisito", do travestido, e de pacientes
internados em asilos.
Ela escreve:
"Pessoas esquisitas foram uma coisa que eu
fotografei muito. Era uma das primeiras coisas que eu fotografei
e que teve um impressionante tipo de excitação para
mim. Eu costumava adorá-los. Eu ainda adoro algum deles.
Eu não quero dizer que eles são meus melhores amigos,
mas eles me fizeram sentir uma mistura de vergonha e admiração.
Há uma certa lenda sobre o esquisito. Como uma pessoa num
conto de fada que pára você e exige que responda a
um enigma. A maioria das pessoas passa a vida com receio que um
dia terá uma experiência traumática. As pessoas
esquisitas já nascem com seu trauma. Elas já passaram
pela prova em vida. Essas pessoas são aristocratas."
Diane Arbus
Ocupantes de um asilo - 1970
Enfim, as fotos de Diane Arbus são reais
e nos convidam a brindar a realidade pela sutileza do sentido. Se
não quisermos apreendê-las porque não agradam,
tudo bem. Porém, se assim fizermos, uma coisa é certa,
nunca seremos enganados a ser aquilo que não somos.
Por Pedro Paulo Monteiro

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