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Portal da Fisioterapia. Disponível em: http://www.portaldafisioterapia.com.br/site/,
publicado em 3 de março de 2006.
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aroma e a poesia do corpo |
"Os aromas trazem lembranças, mas
despertam também nossos sentidos sonolentos, alegram-nos
e satisfazem-nos, ajudam a definir nossas auto-imagens, sacodem
o caldeirão de nossa sedução, previnem-nos
do perigo, fazem-nos cair em tentação, abanam nosso
fervor religioso, acompanham-nos ao paraíso, ligam-nos à
moda, guiam-nos para a luxúria. E, mesmo assim, ao longo
dos tempos, o olfato tornou-se o menos necessário de nossos
sentidos...”
Diane Ackerman
Quando estava na faculdade de fisioterapia
havia uma disciplina que quase todos os alunos não gostavam,
“Técnicas Manuais e Massoterapia”.
O título pomposo não conseguia esconder o preconceito
e repugnância pelo tema. Tudo não passava de ignorância,
insegurança, prepotência, por parte dos alunos. Hoje
compreendo, queríamos ser fisioterapeutas e acreditávamos
que ser massagista não era bom o suficiente. Na época
era comum, por desconhecimento, confundirem os profissionais.
Atualmente costumo dizer aos meus alunos que quando estiver mais
velho quero uma casa afastada da cidade para atender as pessoas
que me procurarem. Utilizarei técnicas de massagem e organização
corporal. Ao sentir o corpo e se conscientizar dele não há
por que ter problemas.
Há alguns anos conheci um fisioterapeuta
que havia trabalhado durante muito tempo na capital paulista. Desistiu
do consultório próspero para ir morar no interior,
bem no alto de uma montanha. Lá, ele trabalhava como terapeuta
floral. Usava uma técnica interessante, levava o cliente
a escolher as ervas e flores do jardim, em frente ao seu consultório,
para fazer banhos terapêuticos. O lugar tinha várias
banheiras. Ele realizava um ritual para colher as plantas para fazer
o banho. O processo terapêutico era poético, intuitivo
e emocionante, sem falar nos resultados positivos. A agenda dele
era cheia, e muitos dos seus clientes vinham da capital. Ou seja,
tinham de viajar durante algumas horas para serem atendidos. Isso
corrobora a idéia de que somos escolhidos quando estamos
prontos ao serviço.
Uma das angústias dos recém-formados em fisioterapia
é não ter trabalho. É importante fazer uma
reflexão: será que estamos preparados para servir?
Não somos doutores para esconder nossa ignorância por
trás de jalecos encardidos, somos doutores para educar, ser
um preceptor. A etimologia latina da palavra doctoris significa
aquele que ensina (docere).
Em síntese, devemos ser aquele que expurga a ignorância
e conduz ao apaziguamento. Onde há saber há paz, onde
há paz inexiste dor. Quando me refiro ao saber quero ir além
do que imaginamos ser a palavra sabedoria. Por isso, gosto muito
da definição de Ram Dass: “sabedoria é
aquietar a mente”. Atualmente somos encharcados de informação,
porém cada vez mais distantes da sabedoria.
Quando tive a oportunidade de conhecer o trabalho da terapia floral
achei fascinante, mas não me interessei em estudá-la.
Após alguns anos conheci a aromaterapia ao ser convidado
a abrir um congresso sobre o tema, na qual ministrei a palestra
de abertura intitulada “Os princípios de um terapeuta”.
Tive a oportunidade de conhecer vários estudos sérios
com resultados surpreendentes. Quem trabalha nesta área precisa
de muita observação e intuição, pois
o sentido do olfato é um sentido mudo. Você já
reparou a dificuldade em expressar por palavras o cheiro do jasmim,
eucalipto, rosa?
Atualmente temos pesquisas sérias que nos mostram a eficácia
da aromaterapia. Elas afirmam que o uso de óleos essências
propicia:
• Mudança de humor, e aumento do
bem-estar (Baron, 1990);
• Redução de estresse (Warren e Warrenburg,
1993);
• Evocação de emoções (Classen
e col.1994);
• Efeito sedativo ou estimulante (Gatti e Cayola, 1923);
• Mudança imediata sobre os pulmões, passando
diretamente para a corrente sanguínea, até atingir
o corpo todo (Buchbauer, 1993);
• Ativação da memória e dos sentimentos,
quando a molécula perfumada atinge principalmente o sistema
límbico (Price e Price, 1999);
• Liberação ou bloqueio de neurotransmissores
podendo gerar euforia, sedação, relaxamento (Schmidt,
1995);
• Formação de anticorpos (Turin, 1995);
• Tratamento da anosmia (Wysocki et al, 1992; Holley,1993;
Nasel et al, 1994);
• Estimulação da criatividade e memórias
felizes (Warren e Warrenburg, 1993);
• Indução aos padrões cerebrais Beta,
relacionados com a atenção e estado de alerta (Steele,
1984);
• Indução aos níveis mais baixos da atividade
cerebral (Alfa = tranqüilidade e Teta = estado cerebral próximo
do sonho) (Steele, 1984);
• Ação analgésica (Rossi e col. 1988);
• Ação fungicida e antiviral (Larrondo e Calvo,
1991);
• Ação antiinflamatória (Jackovlev et
al, 1983);
• Ação antiespasmódica (Taddei et al,
1988; Franchomme e Pénoël, 1990);
• Ação expectorante ( Schilcher, 1985);
• Ação cardiotônica (Woolfson e Hewitt,
1992);
• Ação cicatrizante (Weiss, 1998).
Pelo fato de o nosso corpo não ser uma
máquina a produzir efeitos, baseados em suas causas, e sim
uma complexidade simbólica, a aromaterapia propicia diminuir
diversos sofrimentos, tais como: irritabilidade, raiva, inquietação,
ansiedade, tensão de expectativa, angústia, medo,
culpa, retraimento, apatia, indolência, pensamentos obsessivos
que geram fadiga, melancolia, desconcentração, tristeza,
depressão.
A aromaterapia é alquimia natural. Paracelso, por exemplo,
dizia que um médico deveria aprender a linguagem da natureza
para dominar a medicina. Atualmente, com o avanço da ciência
tecnológica fica difícil acreditar no aroma terapêutico.
As pessoas estão habituadas a pensar erroneamente somente
em “problemas reais”, ou seja, problemas que possam
ser analisados pelos aparelhos de medição. O que não
se pode medir não significa que inexista.
O corpo é o palco de manifestação daquilo que
somos. Ao estarmos bem, temos liberdade de expressão, caso
contrário nós apresentamos movimentos bloqueados e
lentificados. Tudo depende do ser e estar de cada um. Quando dizemos
que estamos com raiva, não raro podemos estar inflamados.
Ou quando dizemos que estamos de “saco cheio” podemos
estar entupidos de secreção.
O corpo tem linguagem própria, recusa o pensamento lógico.
Mesmo que queiramos dar coerência aos sintomas caímos
na armadilha do erro. O corpo é história e, portanto,
memória. Tudo está nele, e vem com ele na travessia
do tempo.
Nesse sentido, a aromaterapia pode contribuir bastante em nossa
prática. Se experimentarmos usar alguns óleos essenciais
quando estivermos alongando, ou mesmo fortalecendo alguns grupos
musculares, teremos efeitos no tratamento de todo o indivíduo.
Por assim dizer, a relevância da aromaterapia associada à
fisioterapia vai mais longe, porque trabalhamos o ser individual
como um todo integral.
Por exemplo, eu atendo uma senhora de 80 anos de idade que apresenta
artrose de joelhos. O joelho direito já sofreu artroplastia
total, e o esquerdo estava caminhando para a cirurgia. Segundo ela,
fez fisioterapia “liga e desliga” durante quinze anos,
o que só contribuiu para mais dor e a cirurgia como último
recurso.
Há um mês, além das técnicas convencionais
de alongamento e organização corporal, estou usando
óleo de Junípero (Juniperus communis) para eliminar
a dor e diminuir os espasmos protetores. Ela já flexiona
o joelho a 90 graus, o que antes parecia impossível. A dor
tem diminuído muito, e ela já consegue subir e descer
escadas. Como ela diz: “estou muito mais esperançosa”.
Sem dúvida, não é somente o óleo de
Junípero, mas com certeza ele tem feito diferença
no processo terapêutico, principalmente no que diz respeito
ao tempo de recuperação.
Pela perspectiva psicossomática podemos fazer uma leitura
interessante. As articulações são nossas “encruzilhadas
psicossomáticas”, a mobilidade que nos permite ir adiante.
A artrose, como todos sabem, é a degeneração,
a representação do desgaste temporal. Tudo o que carregamos
através de nosso plano anímico-corporal. O joelho
se curva, é a articulação que simboliza a humildade.
Não quero afirmar que ela não seja uma pessoa humilde,
mas ela sempre fora uma mulher a cuidar de todos, sem ter retribuição
do cuidado. Ou seja, cuidar, sem aceitar ser cuidado é uma
postura de falta de humildade para consigo mesma. Durante anos ela
cuidou do pai doente até a morte dele, depois veio a mãe,
e ela mais uma vez exerceu o seu papel de filha cuidadora, não
encontrou ninguém para estar ao lado dela, e hoje vive sozinha.
Ela se condenou, carregando no corpo as dores (artrose) da recusa
em curvar-se sobre si mesma e aceitar se libertar.
O arbusto do Junípero nasce por toda a região mediterrânea,
e tem propriedades purificantes e desintoxicantes. Está sempre
verdejante - o símbolo do momento presente, da renovação.
Assim, possui efeito de limpar o passado, renovar o presente, e
permitir o caminhar em direção ao futuro.
A dor é sempre resistência, recusa do fluxo da vida,
imolação. O corpo serve de referência para entendermos
que algo precisa ser modificado, porque ele é uma estrutura
dinâmica.
Portanto, ela está conseguindo abandonar o passado e seguir
adiante, rumo a novas descobertas. Não há idade certa
para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa. O tempo é agora.
Tudo começa onde estamos. Somos poesia porque somos autoconstrução
contínua.
Para finalizar, eu acredito na poesia do corpo, e como está
escrito no livro Quem Somos Nós? O Enigma Do Corpo:
“A poesia utiliza-se de uma linguagem
metafórica que tem ritmo, pulsação. Do mesmo
modo, o corpo humano existe porque tem ritmo e pulsação
sustentados por campos eletromagnéticos. Sabemos que a matéria
é constituída por partículas minúsculas
em um vasto vazio do espaço, unidas por campos elétricos.
Em síntese, o corpo é plástico porque é
energia em ação.” (Monteiro, 2004:14)
Até Breve,
Por Pedro Paulo Monteiro

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