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Revista Kairós -(4) São Paulo: ed. EDUC, 2001. pp. 83-93.

Corpo: imagem e transformação

 

A uma certa idade, está em nossa natureza
nos desgastarmos, ficarmos desengonçados
e morrer, e pronto" Lewis Thomas



Será que somos castigados pelo tempo? Será que o tempo nos devasta como os ventos em dias de tempestade? Enferrujamos pela passagem dos anos? Nossas engrenagens ficam emperradas tornando-nos desengonçados? Funcionamos mal porque nossos componentes estão velhos? Em determinada época, precisaremos ser substituídos pelos mais novos?
A esta altura não sabemos mais se estamos falando de gente ou de uma máquina de lavar, ou mesmo de qualquer outra coisa. Talvez para algumas concepções não há tantas diferenças assim. Pois sabemos que o corpo humano já foi comparado ao funcionamento de um relógio, com suas polias e alavancas, a um sistema hidráulico com canais, pistões e bombas, a uma central telefônica com mensagens entrando e saindo, através de seus diversos fios elétricos.

Todavia, tais analogias grosseiramente mecanicistas, não apenas aproximaram os indivíduos a condição dos objetos materiais inanimados, como também os afastaram do seu princípio humano.
As máquinas são uma construção humana, reunindo-se um montante de peças bem definidas, com a finalidade de operar de acordo com um objetivo previsto, funcionando por meio de cadeias lineares de causa e efeito. Por outro lado, os sistemas vivos são, segundo Maturana e Varela (1997), sistemas "autopoiéticos", organizados por processos de auto-produção de componentes, que se realizam por contínuas interações e transformações dentro do sistema. Um sistema autopoiético continuamente especifica e produz sua própria organização, sob condições de contínua instabilidade. Nesse desequilíbrio reside a vida. Sendo assim, os seres vivos são autônomos, dinâmicos, imprevisíveis, sempre rumo a uma nova estrutura.

Os organismos vivos não podem ser considerados máquinas produzidas em série, porque um organismo vivo possui um alto grau de flexibilidade e plasticidade para se transformar e evoluir, já que são guiados por padrões cíclicos de laços de retroalimentação que mantêm sua auto-organização.
Enquanto existir vida em um organismo, ele estará sempre orientado à inovação, rompendo com padrões antigos em busca do novo, formando cada vez mais redes de complexidade. A criatividade da natureza humana é ilimitada.
Assim, todo ser humano, independente da idade cronológica, possui dentro de si a certeza da transformação, a capacidade de mudar o rumo de sua história, podendo construir um mundo mais satisfatório e pleno para o seu viver. Portanto, o organismo dos mais velhos está longe de ser um organismo estável, sem possibilidades, pois a estabilidade não diz respeito à vida.

Os sistemas vivos organizam-se por movimentos rítmicos em um fluxo ininterrupto recíproco entre pólos opostos. A cada movimento de expansão e contração, alongamento e encurtamento, contato e retraimento, é produzido um padrão específico de organização, que passará a determinar a história estrutural de cada ser humano. Assim, todos os pensamentos, sensações, sentimentos, emoções são organizados de tal forma que fornece a cada indivíduo uma identidade-corpo, passando a representar sua própria história. Uma história de luta e desistência, amor e ódio, silêncio e expressão, dor e prazer. Aspectos estes compostos pelo modo que cada um enfrenta, compreende e interpreta o fluxo da vida.
O sujeito, indeterminado, é mais que simplesmente uma forma. Ele é uma qualidade de ser, que emerge de sua auto-organização.

É vital para os organismos humanos a interação com o seu ambiente e com outros organismos humanos. Somos seres gregários e, portanto, precisamos receber e expressar, pela emoção do corpo, o conhecimento necessário que nos auxilie na adaptação às diversas circunstâncias da vida. Por isso, precisamos aprender, e somente por meio do processo do envelhecimento - entendido como processo de viver - iremos pertencer a um espaço e a um tempo subjetivo que nos proporcione viver em busca do conhecimento que não se esgota.
Vivemos pelo conhecer, e a aquisição do conhecimento surge pelo sentir, ou seja, pela experiência instantânea e pontual de algo que atinge o corpo. Maturana (1997) relata que a partir do momento que o organismo perde o sentido de conectividade com sua circunstância, perde também o seu conhecimento, e então morre. Não podemos viver sem o sentir porque somos a partir de nossos sentidos. São os sentidos que especificam nossa práxis do viver, sendo estes tão vitais quanto a respiração.
Viver é estar consciente dos movimentos nascentes do corpo que clama por conhecimento. Através do movimento podemos ir em busca dos nossos desejos, daquilo que ainda não foi estruturado, reestruturando antigos padrões, dando novo colorido ao contexto vivido. Entretanto, se esquecemos do nosso corpo, esquecemos também de como viver, deixando de ser.

Infelizmente, a identidade social de velho, com seus atributos negativos, determina que o desejo não pertence ao velho, que o seu tempo é o passado, sendo o futuro apenas acaso. Os atributos negativos reservam a essas pessoas a estabilidade, o cessar do movimento, retirando por completo a autonomia e decisão da direção a ser tomada. Se não há desejo, não há movimento. A motivação é minada, os sentidos se acomodam, o aprendizado não é ressignificado, e a repetição vazia se transforma em hábito, gerando angústia, depressão, degradação e fome afetiva. Em suma, para se ter movimento coordenado há necessidade de intenção orientada ao futuro, desejos que borbulhem em direção aos objetivos.
A privação do desejo na velhice, principalmente quando são perdidas as funções sociais, leva as pessoas ao isolamento e a solidão que degenera, forçando-as a acreditar na "normalidade" da situação, que retira qualquer possibilidade de dar outra direção à vida. Por isso muitos querem a morte, porque acreditam ser a única saída para a transformação, para a mudança de destino. Ninguém pode desejar o desconhecido, como também ninguém, de fato, quer modificar uma situação quando esta se encontra salutar e satisfatória. Porém, a incapacidade em adquirir sensações novas e variadas, impulsiona o velho ao isolamento e a solidão, ao silêncio do abandono que rompe seu contato vital com o mundo, propiciando a inércia do corpo, que acaba por rouba-lhe a possibilidade do conhecer.
Onde está o direito da vida e da morte? Muitas famílias parecem tratar os seus velhos como peças de antiquário, que apenas ocupam um espaço morto dentro de casa. Não os sustenta de afetividade, ao mesmo tempo, não permitem que desapareçam de seus lugares. O apego está mais circunscrito ao hábito do que a afeição. Mas então o que é viver?

Viver é ter movimento, enquanto morrer é a rigidez total (rigor mortis). Muitos velhos enrijecem seus corpos como forma de proteção, para não sentirem o fluxo da vida, porque sentir pode designar sofrimento, padecer com a espera de nada acontecer. Então, desconectam-se, ficam em suspenso, perdendo suas raízes, deixam de ser alguém porque perderam seus lugares no mundo.
Imaginamos a exclusão social dos velhos ocorrer apenas em espaços públicos. Entretanto, a exclusão e o isolamento acontecem também dentro dos espaços privados, onde o velho solitário encontra-se em seu pequeno "quarto dos fundos", vivendo junto à família mas em mundos separados, sem nenhuma comunicação afetiva. Essa fronteira bem demarcada não é somente construída por paredes de concreto mas, principalmente, por paredes simbólicas de rejeição, sinalizando a exclusão fria e velada.
A família, muitas vezes, deixa à parte o velho porque não o quer como espelho, pois, talvez, anuncie a possibilidade do próprio futuro. E como a velhice é vista como algo triste, e só diz respeito ao outro que nela se encontra, o melhor a ser feito é encerrá-lo no "quarto dos fundos" da casa, acreditando que as suas necessidades básicas estão sendo atendidas, de acordo com as demandas de um corpo que já viveu tudo o que tinha para ser vivido, agora restando apenas o descanso da "máquina" desgastada pelo tempo, esperando o momento derradeiro para sair de cena.
Assim, o velho é tratado pela família como pária, sendo considerado como uma espécie estranha que não possui as mesmas necessidades e sentimentos dos mais jovens. A ele é somente dado o básico para a sobrevivência, não mais que isso, ou seja, uma alimentação sem sabor, roupas antigas porque o corpo não oferece mais nenhum tipo de sedução, um lugar para descanso, com espaço reduzido porque não há necessidade de expandir desejos, mesmo porque o desejo é exclusividade dos jovens.

 

 

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