A uma certa idade,
está em nossa natureza
nos desgastarmos, ficarmos desengonçados
e morrer, e pronto" Lewis Thomas
Será que somos castigados pelo tempo? Será que
o tempo nos devasta como os ventos em dias de tempestade?
Enferrujamos pela passagem dos anos? Nossas engrenagens ficam
emperradas tornando-nos desengonçados? Funcionamos
mal porque nossos componentes estão velhos? Em determinada
época, precisaremos ser substituídos pelos mais
novos?
A esta altura não sabemos mais se estamos falando de
gente ou de uma máquina de lavar, ou mesmo de qualquer
outra coisa. Talvez para algumas concepções
não há tantas diferenças assim. Pois
sabemos que o corpo humano já foi comparado ao funcionamento
de um relógio, com suas polias e alavancas, a um sistema
hidráulico com canais, pistões e bombas, a uma
central telefônica com mensagens entrando e saindo,
através de seus diversos fios elétricos.
Todavia, tais analogias grosseiramente
mecanicistas, não apenas aproximaram os indivíduos
a condição dos objetos materiais inanimados,
como também os afastaram do seu princípio humano.
As máquinas são uma construção
humana, reunindo-se um montante de peças bem definidas,
com a finalidade de operar de acordo com um objetivo previsto,
funcionando por meio de cadeias lineares de causa e efeito.
Por outro lado, os sistemas vivos são, segundo Maturana
e Varela (1997), sistemas "autopoiéticos",
organizados por processos de auto-produção de
componentes, que se realizam por contínuas interações
e transformações dentro do sistema. Um sistema
autopoiético continuamente especifica e produz sua
própria organização, sob condições
de contínua instabilidade. Nesse desequilíbrio
reside a vida. Sendo assim, os seres vivos são autônomos,
dinâmicos, imprevisíveis, sempre rumo a uma nova
estrutura.
Os organismos vivos não podem ser
considerados máquinas produzidas em série, porque
um organismo vivo possui um alto grau de flexibilidade e plasticidade
para se transformar e evoluir, já que são guiados
por padrões cíclicos de laços de retroalimentação
que mantêm sua auto-organização.
Enquanto existir vida em um organismo, ele estará sempre
orientado à inovação, rompendo com padrões
antigos em busca do novo, formando cada vez mais redes de
complexidade. A criatividade da natureza humana é ilimitada.
Assim, todo ser humano, independente da idade cronológica,
possui dentro de si a certeza da transformação,
a capacidade de mudar o rumo de sua história, podendo
construir um mundo mais satisfatório e pleno para o
seu viver. Portanto, o organismo dos mais velhos está
longe de ser um organismo estável, sem possibilidades,
pois a estabilidade não diz respeito à vida.
Os sistemas vivos organizam-se por movimentos
rítmicos em um fluxo ininterrupto recíproco
entre pólos opostos. A cada movimento de expansão
e contração, alongamento e encurtamento, contato
e retraimento, é produzido um padrão específico
de organização, que passará a determinar
a história estrutural de cada ser humano. Assim, todos
os pensamentos, sensações, sentimentos, emoções
são organizados de tal forma que fornece a cada indivíduo
uma identidade-corpo, passando a representar sua própria
história. Uma história de luta e desistência,
amor e ódio, silêncio e expressão, dor
e prazer. Aspectos estes compostos pelo modo que cada um enfrenta,
compreende e interpreta o fluxo da vida.
O sujeito, indeterminado, é mais que simplesmente uma
forma. Ele é uma qualidade de ser, que emerge de sua
auto-organização.
É vital para os organismos humanos
a interação com o seu ambiente e com outros
organismos humanos. Somos seres gregários e, portanto,
precisamos receber e expressar, pela emoção
do corpo, o conhecimento necessário que nos auxilie
na adaptação às diversas circunstâncias
da vida. Por isso, precisamos aprender, e somente por meio
do processo do envelhecimento - entendido como processo de
viver - iremos pertencer a um espaço e a um tempo subjetivo
que nos proporcione viver em busca do conhecimento que não
se esgota.
Vivemos pelo conhecer, e a aquisição do conhecimento
surge pelo sentir, ou seja, pela experiência instantânea
e pontual de algo que atinge o corpo. Maturana (1997) relata
que a partir do momento que o organismo perde o sentido de
conectividade com sua circunstância, perde também
o seu conhecimento, e então morre. Não podemos
viver sem o sentir porque somos a partir de nossos sentidos.
São os sentidos que especificam nossa práxis
do viver, sendo estes tão vitais quanto a respiração.
Viver é estar consciente dos movimentos nascentes do
corpo que clama por conhecimento. Através do movimento
podemos ir em busca dos nossos desejos, daquilo que ainda
não foi estruturado, reestruturando antigos padrões,
dando novo colorido ao contexto vivido. Entretanto, se esquecemos
do nosso corpo, esquecemos também de como viver, deixando
de ser.
Infelizmente, a identidade social de velho,
com seus atributos negativos, determina que o desejo não
pertence ao velho, que o seu tempo é o passado, sendo
o futuro apenas acaso. Os atributos negativos reservam a essas
pessoas a estabilidade, o cessar do movimento, retirando por
completo a autonomia e decisão da direção
a ser tomada. Se não há desejo, não há
movimento. A motivação é minada, os sentidos
se acomodam, o aprendizado não é ressignificado,
e a repetição vazia se transforma em hábito,
gerando angústia, depressão, degradação
e fome afetiva. Em suma, para se ter movimento coordenado
há necessidade de intenção orientada
ao futuro, desejos que borbulhem em direção
aos objetivos.
A privação do desejo na velhice, principalmente
quando são perdidas as funções sociais,
leva as pessoas ao isolamento e a solidão que degenera,
forçando-as a acreditar na "normalidade"
da situação, que retira qualquer possibilidade
de dar outra direção à vida. Por isso
muitos querem a morte, porque acreditam ser a única
saída para a transformação, para a mudança
de destino. Ninguém pode desejar o desconhecido, como
também ninguém, de fato, quer modificar uma
situação quando esta se encontra salutar e satisfatória.
Porém, a incapacidade em adquirir sensações
novas e variadas, impulsiona o velho ao isolamento e a solidão,
ao silêncio do abandono que rompe seu contato vital
com o mundo, propiciando a inércia do corpo, que acaba
por rouba-lhe a possibilidade do conhecer.
Onde está o direito da vida e da morte? Muitas famílias
parecem tratar os seus velhos como peças de antiquário,
que apenas ocupam um espaço morto dentro de casa. Não
os sustenta de afetividade, ao mesmo tempo, não permitem
que desapareçam de seus lugares. O apego está
mais circunscrito ao hábito do que a afeição.
Mas então o que é viver?
Viver é ter movimento, enquanto
morrer é a rigidez total (rigor mortis). Muitos velhos
enrijecem seus corpos como forma de proteção,
para não sentirem o fluxo da vida, porque sentir pode
designar sofrimento, padecer com a espera de nada acontecer.
Então, desconectam-se, ficam em suspenso, perdendo
suas raízes, deixam de ser alguém porque perderam
seus lugares no mundo.
Imaginamos a exclusão social dos velhos ocorrer apenas
em espaços públicos. Entretanto, a exclusão
e o isolamento acontecem também dentro dos espaços
privados, onde o velho solitário encontra-se em seu
pequeno "quarto dos fundos", vivendo junto à
família mas em mundos separados, sem nenhuma comunicação
afetiva. Essa fronteira bem demarcada não é
somente construída por paredes de concreto mas, principalmente,
por paredes simbólicas de rejeição, sinalizando
a exclusão fria e velada.
A família, muitas vezes, deixa à parte o velho
porque não o quer como espelho, pois, talvez, anuncie
a possibilidade do próprio futuro. E como a velhice
é vista como algo triste, e só diz respeito
ao outro que nela se encontra, o melhor a ser feito é
encerrá-lo no "quarto dos fundos" da casa,
acreditando que as suas necessidades básicas estão
sendo atendidas, de acordo com as demandas de um corpo que
já viveu tudo o que tinha para ser vivido, agora restando
apenas o descanso da "máquina" desgastada
pelo tempo, esperando o momento derradeiro para sair de cena.
Assim, o velho é tratado pela família como pária,
sendo considerado como uma espécie estranha que não
possui as mesmas necessidades e sentimentos dos mais jovens.
A ele é somente dado o básico para a sobrevivência,
não mais que isso, ou seja, uma alimentação
sem sabor, roupas antigas porque o corpo não oferece
mais nenhum tipo de sedução, um lugar para descanso,
com espaço reduzido porque não há necessidade
de expandir desejos, mesmo porque o desejo é exclusividade
dos jovens.
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