Baseado em minhas observações
feitas a partir dos atendimentos domiciliares com pessoas
que apresentavam deficiências físicas, decidi
pesquisar a possibilidade da transformação corporal
na velhice. Uma vez que verificava empiricamente o quanto
essas pessoas, ao longo do tempo de convivência terapêutica,
modificavam não somente seus corpos como também
suas condutas, comportamentos e personalidade.
Assim, fui percebendo que não era apenas a técnica
terapêutica importante, mas também a atitude
solidária do terapeuta para com as pessoas que se sentiam
fragilizadas e vulneráveis no processo. Isso corroborava
a idéia da relevância da prática de um
princípio mais humanizado, pelo qual passei a denominar
de "relação sujeito-sujeito". Essa
relação não vê o outro como um
rótulo nosológico, como costumamos encontrar
na prática terapêutica. Isto é, a pessoa
perde sua própria identidade para ser conhecida como
a "senhora asmática", o "senhor hemiplégico",
a "dona da artrose", e assim por diante. Esses rótulos
afastam a compreensão do doente, minimizando as chances
do restabelecimento da qualidade de vida.
A relação sujeito-sujeito
não se apoia somente no conhecimento da doença,
mas vai além, procurando o entendimento profundo da
pessoa que sofre. Considerar a doença do velho de modo
isolado é ser simplista, porque o sofrimento humano
é multifatorial e, portanto, se quisermos atuar de
modo mais eficiente no cuidado aos velhos doentes, temos de
compreender suas necessidades enquanto humanos, assim como
a natureza de suas vidas, e não simplesmente saber
as causas da doença. Devemos respeitar as queixas,
sem desconsiderar absolutamente nada, mesmo porque estas,
freqüentemente, são interpretadas como "queixumes
da idade".
Dentro desse contexto, a pedagogia na saúde tem também
papel preponderante, por intermédio da reeducação
das crenças a respeito da velhice, pois, não
raro, escutamos os velhos dizerem ser "natural"
os infortúnios provocados pela doença nessa
fase da vida. Do mesmo modo, não conseguem acreditar
na possibilidade de recuperação, lamentando-se
pelo fato de serem velhos. Nesse sentido, precisamos nos armar
de estratégias de aprendizagem que reformem as crenças,
reeduquem os conceitos, transformem os pensamentos. Somos
seres integrais cuja mente não é produto do
cérebro, mas um processo onipresente contínuo,
cheio de vontade de transformar o não manifesto em
manifesto. Assim, aquilo que acreditamos ser verdadeiro se
tornará verdadeiro, nem que seja apenas aos nossos
olhos.
Todo processo terapêutico deve vir fundamentado na participação
ativa do doente, porque a cura não é unilateral.
Se o corpo humano é constituído por átomos,
a idéia de corpo como um objeto isolado no espaço
e no tempo não faz sentido. Os corpos são dinâmicos
e manifestam-se em processos de interação constante
com os outros corpos e todas as outras coisas com as quais
estão envolvidos. Desse modo, a saúde e a doença
não podem ser vistas como um fenômeno somente
individual e sim compartilhado, que se estende a todos os
outros corpos. Não há neutralidade na ação,
ou seja, a ação é sempre recíproca,
causando mudanças tanto naqueles que precisam de cuidados
quanto naqueles que cuidam.
Todos nós somos frágeis e
vulneráveis. É contingência humana. Portanto,
necessitamos do sustento da ternura e da força do cuidado.
Somos seres sem fronteiras e, é por isso, que na relação
sujeito-sujeito, a cura torna-se democratizada e compartilhada.
Somos tecidos em conjunto, formando uma grande e indissociável
rede de relações. Por isso, a solidariedade
possui um papel importante no sucesso terapêutico. Como
assinala Edgar Morin, o pensamento complexo:
"É um pensamento da solidariedade
entre tudo o que constitui nossa realidade; que tenta dar conta
do que significa originalmente o termo complexus: 'o que tece
em conjunto', e responde ao apelo do verbo latino complexere:
'abraçar'. O pensamento complexo é um pensamento
que pratica o abraço. Ele se prolonga na ética
da solidariedade" (Morin, 1997:11).
Pela compreensão da teoria do abraço,
me remeti ao toque como meio possível da materialização
da solidariedade. Pois, o toque como sendo "um autêntico
ponto de encontro entre os sujeitos" (Restrepo, 1998:50),
poderia favorecer a mutação alquímica
da cura. Não podemos nos curar sozinhos, precisamos
do outro para nos orientar enquanto estivermos confusos nas
brumas da incerteza do caminho a ser seguido.
A possibilidade está no verdadeiro encontro, porque
a cura está no encontro, no cuidado terno do velho,
auxiliando-o integrar os fragmentos esquecidos no âmbito
do seu passado.
Foi por meio do toque, ressignificação da pele,
que três velhas mulheres pesquisadas por mim, conseguiram
confirmar que a transformação corporal na velhice
é possível, mudando por completo seus hábitos,
reavendo suas histórias antes perdidas no tempo, descobrindo
novas formas de ser e de existir.
Essas mulheres encontravam-se abandonadas dentro do próprio
domicílio, presas no labirinto da dúvida do
real significado que tinham como pessoa, com os corpos maculados
pelo descaso e deficientes em suas expressões.
Foram dois anos ininterruptos de contato, numa periodicidade
de uma a duas vezes por semana. Durante esse tempo, foi possível
coletar suas histórias de vida, nos quais busquei compreender
sem mutilar suas particularidades. Em momento algum esqueci
de que não poderia atingir a essência daquelas
histórias, porque o relato de uma história é
sempre uma recuperação da memória, por
um lampejo, que vem misturado conteúdos de uma realidade
presente com a paisagem esquecida do passado.
Como o ato de tocar não é
simplesmente o roçar da pele de um com a pele do outro,
mas transcende a própria barreira da pele para atingir
a complexidade do humano, mobilizando o ser e integrando a
imagem mental do corpo, tive a intenção de relacionar
as histórias de vida com a projeção gráfica,
por intermédio dos desenhos da figura humana.
A técnica dos desenhos da figura humana foi utilizada
com a finalidade de evidenciar parte da dinâmica das
imagens mentais do corpo das mulheres pesquisadas. Segundo
Hammer (1991), a percepção consciente e inconsciente
de uma pessoa com relação a si mesma, às
outras pessoas e de seu meio determina o conteúdo de
seu desenho. Sabemos que a expressão nasce a partir
do mundo simbólico do sujeito, ou seja, ele utiliza-se
de sua linguagem simbólica para materializar seus conteúdos
internos. Dentre os quais encontra-se sua imagem corporal.
A imagem corporal pode ser entendida como
a figuração do corpo formada na mente. Esta
figura vai sendo desenhada de acordo com o modo que o sujeito
elabora suas experiências corporais no mundo externo.
Para que esta figura corpo esteja integrada de maneira eficiente
é necessário que o sujeito interaja harmoniosamente
com o seu meio.
A imagem corporal é dinâmica e em processo contínuo
de mudanças, sendo construída e reconstruída
a todo o momento. A cada movimento do corpo no espaço,
um novo padrão de organização da imagem
corporal é formado, ou seja, pelas sensações
e pela motricidade forma-se uma nova configuração
do corpo na mente. Essa imagem não é somente
construída pelos registros sensoriais e motores, mas
também pelos significados afetivos e emocionais da
experiência vivida, propiciando ao indivíduo
outros sentidos e perspectivas acerca do aprendizado alcançado.
Assim, a imagem corporal nos oferece uma compreensão
do modo como o corpo se apresenta para nós, daquilo
que somos como indivíduos e a maneira de olharmos o
mundo e para nós mesmos.
Foi possível observar pelos desenhos
feitos o quanto a perda, exclusão, rejeição,
angústia, dor, sofrimento e a depressão provocavam
lacunas e distorções na imagem corporal, gerando
diminuição da expressão psicomotora.
E o quanto foi possível, pelo contato e pela relação
sujeito-sujeito acender uma imagem mental preenchendo as lacunas
formadas na representação do corpo.
Confirmei a hipótese de que o caminho para a transformação
corporal das velhas mulheres pesquisadas estava no encontro
terapêutico. Pois, toda experiência transformadora
de fé, esperança e amor fundamentam-se na prática
da generosidade no momento que o outro se desnuda, e se coloca
indefeso na relação. Sendo assim, a vulnerabilidade
deve sempre ser aceita com solidariedade, referenciado na
parceria, sem dominação que possa retirar a
espontaneidade do outro.
Nessa aventura terapêutica constatei que os corpos humanos
são plásticos porque vivem, obedecendo a regra
da vida que é transformar, inovar, evoluir. Assim,
enquanto um corpo viver, independente de sua idade cronológica,
existirá dentro dele a potencialidade, a certeza da
mudança. Por isso, ele será capaz de reconstruir
sua história no fluxo do tempo, no próprio tempo,
no seu tempo vivido.
Contudo, a velhice não é a espera do fim da
jornada. Ao contrário, ela pode representar o momento
do resgate, da ressignificação da história.
Porém, isso exige ação concentrada, reflexão
dirigida, movimento que possibilite o encontro de respostas.
Dentro dessa perspectiva, se acreditarmos no humano, na força
que o mobiliza, poderemos também acreditar na magia,
no milagre da vida.
Podemos, assim, contrapor com a idéia preconizada por
Lewis Thomas, dizendo:
A uma certa idade está em nossa natureza criar novos
rumos para a nossa história, tornando-nos mais livres
e, finalmente, aceitando ser quem de fato somos.
Assim seja!

BIBLIOGRAFIA:
GROF, Stanislav. O jogo cósmico: explorações
das fronteiras da consciência humana. São Paulo:
Editora Atheneu, 1998.
HAMMER, Emanuel F. Aplicações clínicas
dos desenhos projetivos. São Paulo: Casa do Psicólogo,
1991.
LOWEN, Alexander e LOWEN, Leslie. Exercícios de bioenergética:
o caminho para uma saúde vibrante. 3ª ed. São
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MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Organizado por
Cristina Magro et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
e VARELA, Francisco J. De máquinas e seres vivos: Autopoiese
- a organização do vivo. 3ª ed. Porto Alegre:
Editora Artes Médicas, 1997.
MORIN, Edgar. "Abertura". In: Gustavo Castro et
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Sulina, 1997.
RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis:
Editora Vozes, 1998.
ROSE, Steven. O cérebro consciente. São Paulo:
Editora Alfa-Omega, 1984.
SCHILDER, Paul. A Imagem do Corpo: as energias construtivas
da psique. 2ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes,
1994.