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Revista Kairós -(4) São Paulo: ed. EDUC, 2001. pp. 83-93

Corpo: imagem e transformação (continuação)

 

Baseado em minhas observações feitas a partir dos atendimentos domiciliares com pessoas que apresentavam deficiências físicas, decidi pesquisar a possibilidade da transformação corporal na velhice. Uma vez que verificava empiricamente o quanto essas pessoas, ao longo do tempo de convivência terapêutica, modificavam não somente seus corpos como também suas condutas, comportamentos e personalidade.
Assim, fui percebendo que não era apenas a técnica terapêutica importante, mas também a atitude solidária do terapeuta para com as pessoas que se sentiam fragilizadas e vulneráveis no processo. Isso corroborava a idéia da relevância da prática de um princípio mais humanizado, pelo qual passei a denominar de "relação sujeito-sujeito". Essa relação não vê o outro como um rótulo nosológico, como costumamos encontrar na prática terapêutica. Isto é, a pessoa perde sua própria identidade para ser conhecida como a "senhora asmática", o "senhor hemiplégico", a "dona da artrose", e assim por diante. Esses rótulos afastam a compreensão do doente, minimizando as chances do restabelecimento da qualidade de vida.

A relação sujeito-sujeito não se apoia somente no conhecimento da doença, mas vai além, procurando o entendimento profundo da pessoa que sofre. Considerar a doença do velho de modo isolado é ser simplista, porque o sofrimento humano é multifatorial e, portanto, se quisermos atuar de modo mais eficiente no cuidado aos velhos doentes, temos de compreender suas necessidades enquanto humanos, assim como a natureza de suas vidas, e não simplesmente saber as causas da doença. Devemos respeitar as queixas, sem desconsiderar absolutamente nada, mesmo porque estas, freqüentemente, são interpretadas como "queixumes da idade".
Dentro desse contexto, a pedagogia na saúde tem também papel preponderante, por intermédio da reeducação das crenças a respeito da velhice, pois, não raro, escutamos os velhos dizerem ser "natural" os infortúnios provocados pela doença nessa fase da vida. Do mesmo modo, não conseguem acreditar na possibilidade de recuperação, lamentando-se pelo fato de serem velhos. Nesse sentido, precisamos nos armar de estratégias de aprendizagem que reformem as crenças, reeduquem os conceitos, transformem os pensamentos. Somos seres integrais cuja mente não é produto do cérebro, mas um processo onipresente contínuo, cheio de vontade de transformar o não manifesto em manifesto. Assim, aquilo que acreditamos ser verdadeiro se tornará verdadeiro, nem que seja apenas aos nossos olhos.
Todo processo terapêutico deve vir fundamentado na participação ativa do doente, porque a cura não é unilateral. Se o corpo humano é constituído por átomos, a idéia de corpo como um objeto isolado no espaço e no tempo não faz sentido. Os corpos são dinâmicos e manifestam-se em processos de interação constante com os outros corpos e todas as outras coisas com as quais estão envolvidos. Desse modo, a saúde e a doença não podem ser vistas como um fenômeno somente individual e sim compartilhado, que se estende a todos os outros corpos. Não há neutralidade na ação, ou seja, a ação é sempre recíproca, causando mudanças tanto naqueles que precisam de cuidados quanto naqueles que cuidam.

Todos nós somos frágeis e vulneráveis. É contingência humana. Portanto, necessitamos do sustento da ternura e da força do cuidado. Somos seres sem fronteiras e, é por isso, que na relação sujeito-sujeito, a cura torna-se democratizada e compartilhada.
Somos tecidos em conjunto, formando uma grande e indissociável rede de relações. Por isso, a solidariedade possui um papel importante no sucesso terapêutico. Como assinala Edgar Morin, o pensamento complexo:


"É um pensamento da solidariedade entre tudo o que constitui nossa realidade; que tenta dar conta do que significa originalmente o termo complexus: 'o que tece em conjunto', e responde ao apelo do verbo latino complexere: 'abraçar'. O pensamento complexo é um pensamento que pratica o abraço. Ele se prolonga na ética da solidariedade" (Morin, 1997:11).

Pela compreensão da teoria do abraço, me remeti ao toque como meio possível da materialização da solidariedade. Pois, o toque como sendo "um autêntico ponto de encontro entre os sujeitos" (Restrepo, 1998:50), poderia favorecer a mutação alquímica da cura. Não podemos nos curar sozinhos, precisamos do outro para nos orientar enquanto estivermos confusos nas brumas da incerteza do caminho a ser seguido.
A possibilidade está no verdadeiro encontro, porque a cura está no encontro, no cuidado terno do velho, auxiliando-o integrar os fragmentos esquecidos no âmbito do seu passado.
Foi por meio do toque, ressignificação da pele, que três velhas mulheres pesquisadas por mim, conseguiram confirmar que a transformação corporal na velhice é possível, mudando por completo seus hábitos, reavendo suas histórias antes perdidas no tempo, descobrindo novas formas de ser e de existir.
Essas mulheres encontravam-se abandonadas dentro do próprio domicílio, presas no labirinto da dúvida do real significado que tinham como pessoa, com os corpos maculados pelo descaso e deficientes em suas expressões.
Foram dois anos ininterruptos de contato, numa periodicidade de uma a duas vezes por semana. Durante esse tempo, foi possível coletar suas histórias de vida, nos quais busquei compreender sem mutilar suas particularidades. Em momento algum esqueci de que não poderia atingir a essência daquelas histórias, porque o relato de uma história é sempre uma recuperação da memória, por um lampejo, que vem misturado conteúdos de uma realidade presente com a paisagem esquecida do passado.

Como o ato de tocar não é simplesmente o roçar da pele de um com a pele do outro, mas transcende a própria barreira da pele para atingir a complexidade do humano, mobilizando o ser e integrando a imagem mental do corpo, tive a intenção de relacionar as histórias de vida com a projeção gráfica, por intermédio dos desenhos da figura humana.
A técnica dos desenhos da figura humana foi utilizada com a finalidade de evidenciar parte da dinâmica das imagens mentais do corpo das mulheres pesquisadas. Segundo Hammer (1991), a percepção consciente e inconsciente de uma pessoa com relação a si mesma, às outras pessoas e de seu meio determina o conteúdo de seu desenho. Sabemos que a expressão nasce a partir do mundo simbólico do sujeito, ou seja, ele utiliza-se de sua linguagem simbólica para materializar seus conteúdos internos. Dentre os quais encontra-se sua imagem corporal.

A imagem corporal pode ser entendida como a figuração do corpo formada na mente. Esta figura vai sendo desenhada de acordo com o modo que o sujeito elabora suas experiências corporais no mundo externo. Para que esta figura corpo esteja integrada de maneira eficiente é necessário que o sujeito interaja harmoniosamente com o seu meio.
A imagem corporal é dinâmica e em processo contínuo de mudanças, sendo construída e reconstruída a todo o momento. A cada movimento do corpo no espaço, um novo padrão de organização da imagem corporal é formado, ou seja, pelas sensações e pela motricidade forma-se uma nova configuração do corpo na mente. Essa imagem não é somente construída pelos registros sensoriais e motores, mas também pelos significados afetivos e emocionais da experiência vivida, propiciando ao indivíduo outros sentidos e perspectivas acerca do aprendizado alcançado.
Assim, a imagem corporal nos oferece uma compreensão do modo como o corpo se apresenta para nós, daquilo que somos como indivíduos e a maneira de olharmos o mundo e para nós mesmos.

Foi possível observar pelos desenhos feitos o quanto a perda, exclusão, rejeição, angústia, dor, sofrimento e a depressão provocavam lacunas e distorções na imagem corporal, gerando diminuição da expressão psicomotora. E o quanto foi possível, pelo contato e pela relação sujeito-sujeito acender uma imagem mental preenchendo as lacunas formadas na representação do corpo.
Confirmei a hipótese de que o caminho para a transformação corporal das velhas mulheres pesquisadas estava no encontro terapêutico. Pois, toda experiência transformadora de fé, esperança e amor fundamentam-se na prática da generosidade no momento que o outro se desnuda, e se coloca indefeso na relação. Sendo assim, a vulnerabilidade deve sempre ser aceita com solidariedade, referenciado na parceria, sem dominação que possa retirar a espontaneidade do outro.
Nessa aventura terapêutica constatei que os corpos humanos são plásticos porque vivem, obedecendo a regra da vida que é transformar, inovar, evoluir. Assim, enquanto um corpo viver, independente de sua idade cronológica, existirá dentro dele a potencialidade, a certeza da mudança. Por isso, ele será capaz de reconstruir sua história no fluxo do tempo, no próprio tempo, no seu tempo vivido.
Contudo, a velhice não é a espera do fim da jornada. Ao contrário, ela pode representar o momento do resgate, da ressignificação da história. Porém, isso exige ação concentrada, reflexão dirigida, movimento que possibilite o encontro de respostas.
Dentro dessa perspectiva, se acreditarmos no humano, na força que o mobiliza, poderemos também acreditar na magia, no milagre da vida.
Podemos, assim, contrapor com a idéia preconizada por Lewis Thomas, dizendo:
A uma certa idade está em nossa natureza criar novos rumos para a nossa história, tornando-nos mais livres e, finalmente, aceitando ser quem de fato somos.
Assim seja!



 

BIBLIOGRAFIA:

GROF, Stanislav. O jogo cósmico: explorações das fronteiras da consciência humana. São Paulo: Editora Atheneu, 1998.
HAMMER, Emanuel F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.
LOWEN, Alexander e LOWEN, Leslie. Exercícios de bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante. 3ª ed. São Paulo: Editora Ágora, 1985.
MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Organizado por Cristina Magro et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
e VARELA, Francisco J. De máquinas e seres vivos: Autopoiese - a organização do vivo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997.
MORIN, Edgar. "Abertura". In: Gustavo Castro et al. ( org. ). Ensaios de complexidade. Porto Alegre: Editora Sulina, 1997.
RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
ROSE, Steven. O cérebro consciente. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1984.
SCHILDER, Paul. A Imagem do Corpo: as energias construtivas da psique. 2ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1994.


 

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