A maior parte das
pessoas quando pensam em envelhecimento, pensam em anos cronológicos,
não poucos, mas longos anos, considerando que somente
os velhos envelhecem.
Será que começamos a envelhecer apenas depois
de determinada idade, ou estamos envelhecendo a todo momento
porém não reconhecemos este processo?
A idade cronológica, escala numérica, não
parece ser um meio legítimo para situar as pessoas
no tempo, pois "o homem não está no tempo,
é o tempo que está no homem" (Martins,
1998: 12). Nesse sentido, os anos vividos dizem respeito apenas
ao sujeito que os vive, é uma pertença existencial
e subjetiva. Entretanto, a idade cronológica constitui
um dos elementos de diferenciação entre as pessoas
em nossa sociedade, determinando atributos próprios
para cada grade etária, obrigando os indivíduos
assumirem comportamentos próprios de sua idade.
Contudo, se o tempo é totalidade, é existência,
é a possibilidade do ser, podemos então dizer
que o envelhecimento não é algo estático,
estanque, não é fim. Pelo contrário,
é um processo contínuo de transformação
do humano como ser único em seu tempo vivido.
Dessa forma, quando
nos referimos ao envelhecimento dos organismos vivos, pensamos
em um processo cíclico de mudanças, caracterizado
por um ritmo de degeneração e morte, recomposição
e vida. Como nos mostra a célebre sentença do
filósofo Heráclito de Éfeso: "Viver
da morte, morrer da vida".
O organismo humano, como um sistema complexo, possui um dinamismo
individual que requer flexibilidade para o seu desenvolvimento
em seu próprio tempo. Não existe estabilidade
nos sistemas vivos, apenas estados dinâmicos. Portanto,
o dinamismo dos sistemas possui um movimento contínuo
indo sempre em busca de uma nova estrutura. Dentro dessa perspectiva,
o passar de uma etapa a outra faz o sistema envelhecer e a
especializar-se. Essa especialização é
fundamental para que o organismo desenvolva e evolua.
Associado a evolução é natural que surja
também mudanças corporais. Entretanto, as modificações
não precisam necessariamente vir acompanhadas de doença.
Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke (1994) relatam que
é um equívoco utilizar a palavra doença
no plural - doenças, porque esta palavra só
pode ser usada no singular. Do mesmo modo que saúde.
Doença e saúde são palavras singulares
porque se referem ao estado da pessoa em si, e não
as partes do corpo ou órgãos.
Infelizmente, a
velhice, não raro, é interpretada pelas pessoas
como sinônimo de doença. É evidente que
um sistema mais velho encontra-se mais suscetível a
adoecer, porque há uma diminuição em
sua capacidade de defesa. Porém, essa capacidade não
está circunscrita somente aos processos biológicos.
Não ficamos doentes em decorrência da velhice
e sim devido a vulnerabilidade biopsicossocial.
A especialização na ciência contemporânea
tem como resultado inegável um maior conhecimento das
partes isoladas, mas, simultaneamente, obscurece qualquer
compreensão da totalidade do ser humano, não
reconhece e respeita a singularidade.
De acordo com Fritjof Capra (1994, 1997), a ciência
médica contemporânea ainda apresenta uma visão
mecanicista da vida, reduzindo a organização
dos sistemas vivos a mecanismos moleculares e celulares deterministicamente.
Apesar dos organismos vivos se apresentarem com uma grande
variedade de partes e mecanismos semelhantes a máquinas,
isto não significa que eles sejam máquinas.
Há uma considerável diferença entre as
máquinas e os organismos vivos. As máquinas
são construídas montando-se um número
bem definido de peças a partir de um projeto determinado
e previsível, que funciona de acordo com cadeias lineares
de causa e efeito. Assim, é possível estabelecer
uma causa única de um defeito caso este ocorra, bastando
simplesmente ler o manual de instruções para
entender qual a peça danificada, trocando-a com o intuito
de restabelecer o funcionamento.
Os organismos vivos,
por outro lado, são constituídos por sistemas
de redes de células, órgãos que interagem
em várias direções com outros sistemas,
formando laços de interligação e interdependência.
Não obstante as partes de um organismo apresentarem
regularidades e tipos de comportamento bem definidos, as relações
entre suas partes não são rigidamente determinadas,
possuindo um alto grau de flexibilidade e plasticidade para
o seu desenvolvimento. A flexibilidade e plasticidade interna
possibilitam aos organismos se adaptarem a todo momento às
novas circunstâncias.
O estado de interdependência e inter-relação
não linear dos sistemas vivos mostra que uma doença
não pode possuir uma causa única. Portanto,
não é uma parte do corpo ou órgão
que se encontra doente, mas o ser humano que padece em sua
totalidade. Isto reforça a idéia de que não
existem doenças, apenas doentes.
Do mesmo modo, não há meios de determinar com
exatidão a idade biológica dos seres humanos,
porque os organismos vivos possuem um ritmo de pulsação
diferente para indivíduos diferentes. Nunca envelhecemos
de modo idêntico aos outros. Assim, a idade biológica
não pode estar relacionada com a idade cronológica.
A primeira segue um ciclo biológico envolvendo etapas
de evolução do ser humano, como nascimento,
crescimento e morte, enquanto a idade cronológica é
um conceito neutro, numérico, que serve apenas para
fazer classificações. Isto é, ela é
importante em questões burocráticas e legais,
determinando a maioridade legal, a entrada no mercado de trabalho,
o direito à aposentadoria.
O problema da classificação
é o rótulo imposto aos indivíduos. Rótulos
rígidos que interferem na vida cotidiana das pessoas,
estabelecendo regras de condutas tanto para os jovens quanto
para os velhos.
A velhice não deve ser confundida com o envelhecimento.
Enquanto o envelhecimento é um processo natural de
transformação do ser humano através da
temporalidade, a velhice é uma produção
social e não uma categoria natural. Contudo, a produção
social irá influenciar diretamente no processo do envelhecimento
dos indivíduos, pois ao mesmo tempo em que somos produtores
de uma cultura, somos também produtos dela própria.
A velhice é uma construção feita pela
sociedade como meio de categorizar os velhos com seus atributos,
colocando-os dentro de uma identidade estanque que permite
a todos preverem esta categoria.
Baseado em conceitos aprendidos, são formadas as nossas
expectativas dentro de um padrão individual daquilo
que acreditamos ser o normal, constituindo em exigências
particulares sem qualquer flexibilidade. Estas exigências
nem sempre são preenchidas com as expectativas normativas.
Quando a situação é a oposta a aprendida,
ficamos diante do não identificável, e como
atitude fundamentada em conceitos sólidos, repudia-se
toda e qualquer situação afastada daquela na
qual não haja identificação. Deste ponto
em diante cria-se a fronteira entre o "normal" e
o "diferente".
Segundo Yan Belz (1992), diferença se opõe a
parecido, a idêntico, gerando fragmentação,
separando os seres humanos e, finalmente, provocando o vazio
do afastamento.
É inquietante,
incômodo e, não raro, desestruturante receber
informações que não possuem o mesmo padrão
das informações armazenadas previamente em nossas
mentes. O incômodo põe em risco o esmagamento
do diferente, segregando-o como forma de preservação
de território.
Muitas pessoas encontram-se diante do diferente quando vêem
velhos que exercem suas atividades sociais com entusiasmo
como, por exemplo, quando aparecem guiando uma moto, saltando
de pára-quedas, namorando na praia, etc. Quando estas
pessoas demonstram atributos que não possuem adequação
ao modelo conceitual do que é ser velho, passam a merecer
destaque na mídia como se isso fosse algo fantástico
e inusitado.
Precisamos lembrar que somente através do diferente
podemos renovar nossas crenças. Sendo assim, se existem
pessoas que demonstram tais condutas não podemos dizer
que isso seja uma exceção, mas sim uma possibilidade
de todos. Basta flexibilizarmos nossas crenças aceitando
o diferente para transformarmos por completo nossa forma de
ser e de viver. Por isso, não há necessidade
de nivelar aquilo que nos contrasta, o que precisamos mesmo
é educar o olhar para que possamos aprender com o diferente.
É preciso assumir um compromisso semelhante ao do artista
que vê beleza nas formas, independente do seu padrão.
Exemplo disso, está na escultura "La belle haulmiére"
de Rodin, que é a figura de uma velha mulher com braços
e pernas retorcidos, magros e enrugados, demonstrando cansaço
e fraqueza na forma castigada pelo tempo. Não obstante
a velha apresentar-se feia a certos olhos, ela demonstra beleza
em sua totalidade, pois a beleza é contextual. Como
assinala Rodin: "Em arte, beleza é caráter.
Só vale o que realmente preenche a intenção
da natureza, plenificando-a concretamente. Só vale
o que nos impressiona com absoluta verdade" (Rilke, 1995:
14). Ele a vê bela porque vê em seu corpo cansado
a verdade da existência, a mais profunda realidade.
É necessária
a transformação do olhar para que se modifique
a imagem do velho, construída por uma sociedade que
não acredita no envelhecimento como processo, apenas
como ameaça da morte.
A imagem do velho está tão arraigada em nossas
mentes, que quando perguntamos a alguém qual a imagem
que vem a consciência quando pensam em uma pessoa velha,
a resposta é imediata: uma pessoa curvada, com passos
curtos e lentos, fazendo uso de uma bengala, que não
escuta e enxerga bem. Estas imagens são formadas desde
cedo, ainda na infância, pelos pais, com grande contribuição
posterior da sociedade através dos meios de comunicação.
As imagens vêm também carregadas de significados
negativos como: "o tempo do velho é o passado
e não mais o futuro", "os velhos são
lentos e dependentes", "os velhos são sempre
um peso para a família", entre outras. Por esta
razão que nenhum de nós quer ser este velho,
sendo tão difícil reconhecer e aceitar a velhice.
Reconhecer as transformações nos outros é
sempre mais simples do que em nós mesmos, porque as
mudanças ocorrem lenta e progressivamente, e como o
nosso cérebro possui uma capacidade constante de renovação,
faz com que a imagem de nosso rosto de ontem, refletida no
espelho, seja sutilmente apagada, deixando lugar para a imagem
do rosto de hoje. Essas mudanças sutis associadas às
representações sociais de que a velhice é
algo negativo, induz o indivíduo a rejeitar a velhice
dentro de si, enxergando-a apenas fora, no outro.
De acordo com Hamachek
(1979), o ideal cultural ajuda a moldar o ideal corporal,
influenciando positiva ou negativamente na auto-estima das
pessoas. Neste sentido, fica claro que a sociedade, perversa
para com os velhos, incide sobre eles normas específicas
a serem seguidas, fazendo-os agir como "velhos sociais";
reforça a formação de hábitos
que nem sempre condizem com a realidade estrutural do sujeito;
incute nele uma imagem corporal do que é ser "velho".
A crença socialmente construída não aceita
particularidades, corrobora uma imagem de velho que possui
uma postura deprimida, inclinada à frente prestes a
cair no fracasso da existência, perdendo toda e qualquer
possibilidade de tomar novos rumos para sua vida, fundada
na noção de que o futuro é inatingível.
Portanto, há
uma necessidade urgente de renovarmos o aprendido, desestruturar
conceitos estanques a respeito da velhice, formar uma nova
estrutura de pensamento. Um pensamento que rompa com a identidade
de velho que tanto nos angustia, abrindo espaço para
que surja um novo sujeito:
- que aceite o corpo experimentando-o com um novo sentido,
modificando sua interpretação, renunciando a
reprovação que vem de fora;
- que aceite e reconheça seu valor interno;
- que aceite as perdas como forma de deixar espaços
para novas aquisições;
- que aceite a informação, refletindo e questionando-a
profundamente, a fim de aglutinar experiências com qualidade;
- que reescreva seus conceitos, ressignificando sua história
de vida para que possa flexibilizar suas características
pessoais;
- que reorganize os próprios hábitos para que
as escolhas não se tornem restritas;
- que deixe algumas "malas pesadas" do passado,
sabendo que não são somente elas que lhe dão
significado;
- que abra espaço para a criatividade, sonhos, desejos,
descobrindo novas formas para o seu viver;
- que pratique a generosidade com o intuito de reencontrar
seu lugar e sentido na vida que ainda lhe pertence;
- que aceite a transformação verificando o quanto
ela pode ser excitante quando seguida;
- que aceite a morte como algo que se tem para viver como
processo;
- que aceite o tempo presente como "presente", dádiva,
ou seja, o único momento que se tem verdadeiramente
entre os dois nadas: passado e futuro.
A percepção da realidade
é um processo aprendido, no qual formamos nossa estrutura
conceitual de mundo. Podemos ser criativos e refazer nossas
crenças, reescrevendo nossa história na temporalidade,
transformando nosso olhar para ver o belo e aceitar as diferenças,
percebendo melhor que tudo e todos que estão a nossa
volta fazem parte de um processo contínuo de interação
recíproca. Assim, o outro é a grande oportunidade
de descobrirmos aquilo que nos falta para preencher as lacunas
de nossa própria história.
Se conseguirmos respeitar, valorizar e compreender a história
de vida dos velhos, que se faz inteira mesmo em um corpo cansado,
veremos que fazemos parte dessa mesma narrativa.
Se for possível resgatar o belo e o encanto em nosso
olhar, teremos a capacidade de reinventar o sonho, o sonho
de ser eterno.

BIBLIOGRAFIA:
BELZ, Yan. "Semelhanças e diferenças".
In: A imagem do corpo/ IV Congresso Brasileiro de Psicomotricidade;
Sociedade Brasileira de Psicomotricidade. Rio de Janeiro:
Livr. Psico-Medi, 1992.
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Científica dos Sistemas Vivos. São Paulo: ed.
Cultrix, 1997.
O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade
e a Cultura Emergente. 16ª ed. São Paulo: ed.
Cultrix, 1994.
DETHLEFSEN, Thorwald e DAHLKE, Rüdiger. A Doença
como Caminho. São Paulo: ed. Cultrix, 1994.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação
da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1975.
HAMACHEK, Don E. Encontros com o Self. Rio de janeiro: ed.
Interamericana, 1979.
MARTINS, Joel."Não Somos Cronos, Somos Kairós".
Revista Kairós: Gerontologia - Núcleo de Estudo
e Pesquisa do Envelhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados
em Gerontologia - PUC-SP. 1.1: 11-24, 1998.
MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo.
2ª ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.
RILKE, Rainer Maria. Rodin. Rio de Janeiro: ed. Relume-Dumará,
1995.
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