A vida é conhecimento puro. Os seres
humanos vivem pelo conhecer, experimentando a cada momento
o desvelar do novo. Enquanto estiverem vivos estarão
conhecendo porque viver é conhecer, conhecer é
viver . Este conhecimento garante a adaptação
do corpo à circunstância, e a cada adaptação
se estabelecerá uma mudança corporal. O passar
de uma etapa a outra faz o organismo humano especializar-se,
evoluir e, conseqüentemente, envelhecer. Em suma, envelhecer
é um processo contínuo de mudança do
organismo pela passagem da temporalidade. A cada novo acontecimento,
um novo padrão corporal adquirido. A estrutura muda
sempre que o corpo se move no espaço. Assim, a experiência
vem continuamente carregada de possibilidades de transformação.
Isso quer dizer que o corpo estará aberto a aquisição
do conhecimento enquanto houver possibilidades de experimentação.
Através do movimento o conhecimento é adquirido,
conservando a vida.
Pela perspectiva da "Biologia do conhecer", preconizada
por Humberto Maturana, a manutenção da adaptação
do corpo no espaço é imprescindível,
sendo necessário estabelecer uma congruência
com o meio para que o organismo consiga viver. A partir do
momento que o organismo perde essa congruência ele morre.
Enquanto houver vida, o organismo se relacionará ao
ambiente, fazendo dele um apêndice do próprio
corpo. Em outras palavras, para que haja vida é necessário
espaço vazio, caminhos possíveis, terrenos sólidos
para a experimentação do corpo. Qualquer fator
limitante ao corpo propicia ameaça ao sentido de pertencer.
Estar no tempo e no espaço pressupõe a existência
humana.
MUNDO CONTRAÍDO
Oliver Sacks , conceituado neurologista,
descreve em seu livro "Com uma perna só"
suas agruras após sofrer um acidente numa montanha
da Noruega, tendo que se submeter a uma delicada cirurgia
na perna esquerda. Ele conta com muita propriedade sua dificuldade
em estar com o corpo limitado, dificultando sua percepção
do espaço. Ele descreve sua recuperação
da seguinte maneira:
"A cada degrau,
a cada avanço, os horizontes se expandiam, saía-se
de um mundo contraído - um mundo que não percebíamos
estar tão contraído. Constatei isso em cada
esfera, a fisiológica e a existencial. Um exemplo me
ocorre especialmente: três dias depois de eu ter andado
pela primeira vez, fui transferido para um novo quarto, um
quarto espaçoso, depois de vinte dias em minha cela
minúscula. Eu estava me instalando, feliz da vida,
quando de repente notei uma coisa estranhíssima. Tudo
o que estava perto de mim tinha a solidez, as dimensões
e a profundidade apropriadas - mas tudo o que estava mais
longe era totalmente plano. Além de minha porta aberta
havia a porta da ala fronteiriça; além daquela
porta, um paciente sentado numa cadeira de rodas; além
dele, no peitoril da janela, um vaso de flores; e além
deste, do outro lado da rua, as janelas de frontão
da casa em frente - e tudo isso, uns sessenta metros, talvez,
era achatado como uma panqueca, e parecia exposto como uma
gigantesca fotografia em cores no ar, primorosamente colorida
e detalhada, mas perfeitamente plana"(Oliver Sacks,
2003:133)
Oliver Sacks concluíra que
mesmo estando em outro quarto, sua percepção
espacial ainda permanecia encerrada, visualmente, numa caixa
de mais ou menos 3 x 2 x 1,8 metro, o tamanho exato da "cela"
que ocupara durante vinte dias. Sua percepção
espacial distorcida ainda durou algum tempo até retornar
por completo.
Oliver Sacks passou apenas vinte dias nessa situação,
enquanto muitos velhos em nossa sociedade estão confinados
durante anos dentro de quartos com espaços reduzidos.
Não raro, os espaços são ainda mais reduzidos
por conter todos os seus objetos de valor, ou seja, aqueles
que lhe restaram durante a vida: móveis que fizeram
parte de um tempo, âncoras de lembranças que
mantém a referência viva de suas histórias.
Essas pessoas receiam deixar para trás seus objetos,
e perderem seus espaços internos, pois os objetos também
delimitam os espaços internos, construindo suas narrativas.
O que está fora favorece o conhecimento da pessoa,
porque proporciona os limites do seu corpo. Uma pessoa conhece
seus limites quando se defronta com os objetos do mundo. Quando
toca o mundo ela toca a si mesma. Por isso quando deixa de
se relacionar com o seu meio o indivíduo passa a ignorar
a si próprio, se perdendo dentro de seu corpo. O espaço
se contrai, diminuindo suas escolhas, propiciando a produção
de um estereótipo social. Por isso, o outro é
sempre uma oportunidade do indivíduo ter a sensação
de si mesmo.
O outro propicia a noção da realidade consensual,
na qual pode ser compartilhado o alimento afetivo, e a certeza
de continuidade da trilha do tempo ainda existente. Estar
preso a um tempo passado é estar rompido com a existência
da forma, é o naufrágio do corpo, a decrepitude
da estrutura pelos fantasmas da velhice.
As pessoas que permanecem por muito
tempo em espaços reduzidos sem a possibilidade de relação
com outros corpos, são pessoas comprometidas não
apenas sensorialmente como também em um nível
comportamental. Vários estudos demonstram que um ambiente
sensorial monótono influencia o comportamento, a fisiologia
do organismo e sua percepção. Quantos velhos
não reclamam da repetição dos dias, da
mesmice da vida, da espera infindável de nada acontecer.
Quanto mais tempo a pessoa ficar distante de estímulos
sensoriais, mais riscos de apresentar quadros de alucinações,
como imagens geométricas, pontos, lampejos etc.
O corpo sendo um importante ponto de referência espacial
necessita de movimento, pois o movimento otimiza a adaptação
ao meio circundante, fornecendo a experiência necessária
para a aquisição do conhecimento. Um conhecimento
essencial que delimita rotas, cumpre metas, planeja realizações.
Em contrapartida, espaços individualizados e solitários
são más estratégias de existência.
Em suma, o coletivo dinamiza o senso de ser e estar de cada
indivíduo, dando-lhe a capacidade de pertencer a um
espaço.
Infelizmente ainda existem velhos deficientes com receio de
sair de seus quartos porque possuem medo de expandir suas
experiências. Estão confinados há anos
dentro de um espaço pequeno e sem vida. O seu único
contato é com o mundo virtual da televisão,
misturado às lembranças sem cor. O que é
lembrar sem poder compartilhar as lembranças? Memórias
sem oportunidade de interação são como
cores sem nuances.
Infelizmente, muitas famílias têm a concepção
de que os velhos precisam de pouco, não compreendendo
que o espaço é necessário para a expansão
do corpo e a manutenção da vida. Dentro do mundo
contraído dos quartos dos fundos não há
possibilidade para a experimentação. O que é
uma pessoa sem experiência? Sem a experiência
não há alimentação dos sentidos,
a privação sensorial é marcante promovendo
o rápido declínio do corpo. Este corpo definha
respaldado pela explicação especialista da biologia
do envelhecimento.
A exclusão privada favorece o processo de descorporificação,
o desaparecimento da pessoa, porque sem corpo não há
existência. Deixando lugar apenas ao diagnóstico.
Assim, todas as perguntas não ficam sem respostas,
surgem justificativas ideológicas de que o envelhecimento
se explica estritamente pela biologia mecanicista.
Freqüentemente, em meu trabalho como fisioterapeuta atendendo
na residência de pessoas com impossibilidades de locomoção,
observo suas dificuldades de relacionamento com o espaço.
Muitas vezes estas pessoas moram em lugares amplos, porém
sem poderem cruzar determinadas linhas imaginárias
impostas por outros. Acabam por se tornarem reféns
da própria família. As regras devem ser obedecidas,
caso não queiram conflitos.
Quando os velhos são dependentes de seus filhos tendo
que morar com eles, comumente necessitam de cuidados, e são
as empregadas domésticas dos filhos que assumem este
papel, transformando-se em cuidadoras da noite para o dia.
Mãos repletas de tempero de alho e cebola se intercalam
com o trabalho de higienização do corpo do velho
doente que perdeu sua independência física e,
conseqüentemente, sua autonomia.
INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA
É importante diferenciar independência
física de autonomia. A independência física
é o ato de agir com o corpo em todos os sentidos sem
necessitar de auxílio de outrem. Enquanto a autonomia
possui um conceito mais amplo, significando a condição
de se relacionar com as pessoas de um modo igualitário,
uma relação sujeito-sujeito, permitindo o respeito
pelas capacidades do outro. De acordo com Marta Bruno (2001),
"a autonomia configura os limites pessoais necessários
para se obter sucesso nos relacionamentos" . Para a autora,
é fundamental que a dimensão de liberdade que
expressa a autonomia da ação do velho seja refletida
junto às famílias.
A palavra refletir significa "dobrar sobre si mesmo".
Refletir é sempre uma atitude de humildade e comiseração,
pois quando o outro se abre para acolher as palavras de seu
interlocutor, ele se curva em reverência para escutá-lo.
Mesmo que depois não aceite suas palavras, dá
a chance de ouvir o que o outro tem a dizer. O problema da
velhice está no monólogo intergeracional, isto
é, aquilo que o mais jovem fala pouco importa se o
mais velho esteja escutando, porque sua opinião muitas
vezes não é relevante, e quando o mais velho
fala, os pensamentos do mais jovem estão tão
distantes do diálogo que são incapazes de ouvi-lo
na íntegra. O ruído da relação
ensurdece qualquer possibilidade de respeito mútuo.
Por esta razão, é evidente o problema do espaço
para os velhos em suas próprias casas.
A velhice não pode ser generalizada, como também
ela não pode ser encarada como doença. Há
anos trabalhando com velhos doentes em seus domicílios,
venho observando que quando essas pessoas conseguem restabelecer
sua independência física enfrentam um dos maiores
obstáculos: a reconquista do espaço perdido.
No livro "Envelhecer: histórias, encontros e transformações"
é contada a história de uma senhora que havia
fraturado o colo de fêmur e desde então encontrava-se
acamada e abandonada. Mesmo morando em uma grande casa, com
o filho, a nora e os netos, ela ficava em um quarto pequeno
e escuro nos fundos da casa e, junto dela, havia uma máquina
de costura sem uso, uma máquina de lavar enferrujada
e um armário onde guardavam "tudo aquilo que não
possuía mais valor. O espaço do quarto era pequeno
para tantas coisas sem importância, esquecidas no tempo"
.
A história dessa senhora é a história
de muitas outras senhoras que participam da exclusão
privada da velhice. Uma exclusão silenciosa, onde os
gritos só são ouvidos através das dores
do corpo que clama por socorro. Estas pessoas são sufocadas
em espaços que não lhe deixam respirar, impedindo
qualquer possibilidade de viver. Por isso, querem a morte
como dádiva de Deus. Rezam freqüentemente para
que o fim dos seus dias seja breve.
Quando um corpo se move no espaço, ele interfere nos
outros corpos. Nesse sentido, a família de um doente
é também doente. Não há possibilidade
de reabilitar o corpo do velho sem também dar movimento
de compreensão para a sua família. Os outros
corpos precisam ser flexíveis para aceitar o movimento
do velho que se desloca no espaço. É através
dessa flexibilidade que a relação poderá
ser resgatada, propiciando novos arranjos familiares. Quando
isso não ocorre, há um desacordo entre os corpos,
um conflito intergeracional, e os atributos negativos da velhice
tomam conta do discurso: "o velho é ranzinza",
"minha avó parece criança", "por
que todo velho é teimoso?", "o tempo do velho
é o passado, por isso ele não entende o presente",
e assim sucessivamente.
Todo movimento requer espaço e tempo. Cada velho possui
seu próprio ritmo, seu próprio tempo, um tempo
vivido, e não um tempo cronológico.
Quando o velho e o jovem atingem a autonomia do diálogo
intergeracional sem conflito, passam a perceber que seus tempos
se complementam formando um único e verdadeiro tempo:
o tempo da experiência com qualidade - o que é
ser um velho experiente se essa experiência não
puder ser de qualidade? Quando eles experimentam juntos o
tempo presente os espaços se ampliam, tornando-se mais
habitáveis, porque a moradia reside na comunhão
e não na solidão que rompe, maltrata, fere a
carne, colocando o velho à parte de seu tempo e espaço.
Para que o velho possa trazer o tempo passado, aceitando o
tempo presente, pensando em possíveis momentos futuros,
ele precisa de espaços livres, a fim de ampliar suas
experiências corporais. Sem a experiência do corpo
não há modos de conhecimento, a cognição
se deteriora, se modifica, distorce. Os velhos isolados em
quartos apertados não conseguem construir um novo tempo,
ficam à deriva do tempo distorcido do passado, com
medo de se lançarem em novas descobertas, de descobrirem
outros espaços, sentindo-se instáveis estruturalmente.
O medo de cair toma forma assustadora e os limites se perdem,
as referências se dissolvem. O corpo instável
não arrisca, resiste ao movimento, ficam anestesiados
para as sensações do mundo. O mundo se transforma
em uma experiência frustrante, e a desistência
é a opção.
Quanto maior a vulnerabilidade do corpo, maior a proporção
de comportamentos mediados pelo ambiente. Isto é, a
influência do ambiente se torna maior em detrimento
dos comportamentos mediados pelos recursos pessoais. Portanto,
a boa oferta de recursos físicos e psicossociais podem
favorecer a saúde e o bem-estar dos velhos vulneráveis
e dependentes. Um ambiente planejado que proporcione espaço
de experimentação ao velho, diminui estados
de apatia e desinteresse, assim como restringem queixas tais
como dores, insônias, depressão e ansiedade .
Se através do corpo o mundo de uma pessoa é
construído, então os corpos dos velhos sem movimento
são corpos sem espaço, sem liberdade, sem autonomia.
São corpos outorgados a obedecerem às leis do
estigma da velhice.
AUTONOMIA DO CORPO
A autonomia corporal precisa ser resgatada
para haver mudança dos espaços de moradia. O
primeiro espaço a ser mudado é o próprio
território; o corpo. É a partir do corpo que
se tem referência do mundo. Tudo que se aproxima ou
se afasta acontece a partir de um ponto de referência
espacial. São estas relações espaciais
que precisam ser devolvidas ao velho. O processo de mudança
tem início no corpo - espaço primordial - para
depois poder se ampliar para outros espaços. Quanto
maior a ampliação dos espaços internos,
maior a necessidade dos velhos buscarem novos espaços
para viverem e conquistarem melhor qualidade em suas vidas,
porque qualidade é um fenômeno subjetivo, não
sendo condizente à identidade social de velho. É
importante reforçar que "qualidade de vida"
refere-se ao sujeito e a sua história. A identidade
é estanque, nada cria, só repete e está
corrompida. O corpo é permeável às máculas
da cultura. Por isso é urgente a reforma de pensamento
acerca da velhice.
O ser humano é o seu espaço físico, porque
o corpo não está apenas fora, ele se encontra
também dentro de seu espaço simbólico,
subjetivo que precisa ser respeitado, dignificado. Por assim
dizer, o espaço de moradia do velho deve ser pensado
estrategicamente baseado na qualidade de vida escolhida por
ele individualmente, porque ele, como sujeito, possui rosto,
corpo, não é uma estatística. Se possui
corpo é porque tem uma história, e esta precisa
ser respeitada.
Os espaços de moradia precisam ser democratizados,
levando em conta as idiossincrasias daqueles que lá
viverão. Portanto, a escolha deve partir daqueles que
irão viver no espaço que, por sua vez, será
o apêndice de seus próprios corpos.
Como bem assinala Leonardo Boff: "a libertação
dos oprimidos deverá provir deles mesmos, na medida
em que se conscientizam da injustiça de sua situação,
se organizam entre si e começam com práticas
que visam transformar estruturalmente as relações
sociais iníquas" . Ninguém melhor para
saber qual espaço ocupar do que os velhos que o ocuparão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Dentro dessa concepção, a
organização em grupos é uma metodologia
imprescindível as mudanças de pensamento acerca
da velhice. Em processos coletivos, há a possibilidade
de se trocar pontos de vista, desconstruir concepções
de mundo reproduzidas e construir novos paradigmas, resgatar
o direito à palavra e à elaboração
do próprio pensamento, realizar a troca de pontos de
vista, expressar sentimentos e emoções, partilhar
questões em comum, contextualizar-se no tempo e no
espaço, enfim, experienciar, de formas bem concretas,
os requisitos de uma cidadania. No face a face coletivo torna-se
possível tecer uma nova corporeidade, referência
para infinitas possibilidades de vida.
Agradecimentos:
Maristela Barenco, Coordenadora do
Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis-RJ.
BIBLIOGRAFIA:
MATURANA, Humberto. Humberto
Maturana: A ontologia da realidade.Organizado
por Cristina Magro et al. Belo Horizonte: ed.
UFMG, 1997.
SACKS, Oliver. Com uma perna só. São
Paulo: ed. Companhia das Letras, 2003.
DAVIDOFF, Linda L. Introdução à
psicologia. 3ª ed. São Paulo: ed.
Makron Books, 2001.
BRUNO, Marta Regina P. Autonomia e cidadania:
caminhos e possibilidades para o ser idoso. Revista
Kairós - Gerontologia. São Paulo,
2001; 4:143-153.
MONTEIRO, Pedro Paulo. Envelhecer: histórias,
encontros e transformações. 2ª
ed. Belo Horizonte: editora Autêntica, 2003.
p. 16
PERRACINE, Mônica R. "Planejamento
e adaptação do ambiente para pessoas
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de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2002.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Petrópolis:
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