|
Portal da Fisioterapia. Disponível em: http://www.portaldafisioterapia.com.br/site/,
publicado em 5 de dezembro de 2005..
| Relevância
da Leitura Criativa |
Há quase 20 anos sou professor universitário.
No início ministrei aulas de fisioterapia aplicada à
neurologia e fisioterapia preventiva, que na época tinha
um nome engraçado "fisioterapia aplicada às condições
sanitárias". Ninguém sabia ao certo o que era
e para que servia, mas era exigência do MEC. A faculdade,
infelizmente, se alimentava pela retórica tosca na expressão
medíocre do diretor: "manda quem pode, obedece quem
tem juízo".
Muitos achavam que a disciplina era uma nova abordagem da saúde
pública. Outros chegavam a galhofas dizendo ser o estudo
das condições dos banheiros públicos. Quando
me ofereceram a disciplina disse que aceitaria com uma condição,
se eu pudesse mudar o conteúdo programático, eles
aceitaram (mesmo porque estavam sem professor). Tentei organizar
a disciplina de modo que eu pudesse trazer temas diferenciados aos
alunos, pois na época tínhamos no curso muitas abordagens
em ortopedia, neurologia, pediatria. Assim, construí uma
disciplina totalmente esquizofrênica, na qual discutia três
assuntos distintos: hanseníase, esportes, geriatria. Eram
três em um, como os últimos modelos de som integrado
lançados naquele ano. O "monstrinho" construído
por mim foi programa lecionado por outros professores até
pouco tempo, sem nenhuma reflexão.
Atualmente as pessoas querem seguir a carreira de professor universitário
a todo custo, mesmo sem saber o que é ser professor "de
verdade". Aliás, eu tive poucos professores "de
verdade" em minha vida acadêmica. Demorei 10 anos para
ser um professor melhor. Isso não quer dizer que outros precisem
levar o mesmo tempo. Muitos podem levar menos tempo, pois cada um
tem o próprio tempo. Eu conheço professores doutores
que ainda não chegaram a ser professores "de verdade".
Nas universidades encontramos com facilidade burocratas que adoram
provas e reprovações, gostam de exercer poder medíocre
típico de impotentes não-assumidos, acreditam dominar
alunos, exibem-se como ursos de circo, e brincam de preencher papéis.
Estudo Contextualizado
Há anos não ministrava aulas para
os alunos de fisioterapia. Havia pedido afastamento para estudar
(para ser alguém na vida), e após alguns anos fui
convidado a retornar à sala de aula. O que encontrei foi
exatamente a mesma situação de antes: a inexistência
de agentes ativos. Os alunos continuam passivos, com bocas abertas
como passarinhos à espera do alimento do professor estropiado.
Como transformar alunos passivos em alunos ativos, autônomos
e responsáveis? Eu só vejo saída pelo estudo
contextualizado. O que é isso?
A vida muda, e é importante saber a nova direção
a ser tomada quando o caminho se abre aos sentidos. Como fisioterapeuta
descobri que não basta ser só fisioterapeuta, como
não basta ser só fonoaudiólogo, psicólogo,
médico, enfermeiro. O importante é aprender a ser
curioso, observar com afinco, descobrir por si mesmo o essencial,
construir alicerces saudáveis.
Edgar Morin, filósofo francês, ainda vivo, escreve
no livro Terra Pátria:
"O pensamento que compartimenta, separa
e isola, permite aos especialistas e experts ter um alto desempenho
em seus compartimentos e cooperar eficazmente em setores de conhecimento
não complexos, especialmente os que concernem ao funcionamento
das máquinas artificiais; mas a lógica a que eles
obedecem estende sobre a sociedade e as relações humanas
as coerções e os mecanismos inumanos da máquina
artificial, e sua visão determinista, mecanicista, quantitativa
e formalista ignora, oculta ou dissolve tudo o que é subjetivo,
afetivo, livre, criador” ( pág. 161).
Lidar com humano pressupõe estudos complexos,
e isso exige conhecimento contextualizado.
Ontem avaliei uma senhora de 70 anos que sofria perda de interesse
pela vida. Ela não era uma mulher deprimida, era sim consciente
do próprio sofrimento, havia perdido a filha única
e o marido que tanto amava. Ela se sentia solitária e desejava
morrer, mas não queria se matar. Na avaliação
pude constatar instabilidade postural severa, fraqueza muscular
dos membros inferiores, e dificuldade na coordenação
dos movimentos. Ela não faz uso de medicamentos, mas está
"aérea", perdida dentro dela mesma, desconhece
o risco de não ter equilíbrio corporal. Freqüentemente
as pessoas não percebem a própria instabilidade postural.
Por isso, instabilidade postural em geriatria é considerada
uma síndrome obscura e perigosa. Todos os nossos sentidos
são percebidos porque variam, ou seja, sabemos que há
luz porque conhecemos a escuridão, escutamos o som porque
conhecemos o silêncio. A gravidade é constante, não
varia. Por isso, não sabemos quando perdemos o equilíbrio.
Acreditamos que algo está errado, mas não sabemos
o quê.
Não basta avaliar e dizer que é preciso sessões
de tratamento, aplicar técnicas de estimulação
de reações de equilíbrio, fortalecimento muscular,
estimulação da coordenação motora. Ela
também precisa de orientação, sentir apoio,
palavras na medida certa.
Expliquei a ela que ter 70 anos atualmente é poder viver
mais 20 anos. Portanto, sem tratamento poderia estar sofrendo 20
anos de vida. Segundo, se ela pensa que basta querer morrer para
lograr a morte é um engano. Ela não pode querer algo
que desconhece, o que ela quer é transformar-se, abandonar
a continuidade trágica do passado e seguir além. Por
último, expliquei a ela que se sentir mal com o corpo é
se sentir mal com a vida.
Propus tratamento, mas solicitei a ela reflexão com atenção
sobre o que conversamos durante as duas horas de avaliação.
Dei-lhe um abraço e disse baixinho no ouvido dela que ela
era mulher digna de confiança, e que não deveria se
abandonar para não sofrer a perda de si mesma.
Eu não receio incompreensão do outro, pois quem precisa
me compreender é o corpo, que se mostra sempre inteligente.
Quem trabalha com o corpo sabe o quão eles são sábios.
Pode parecer simples, mas para se atingir o simples
temos de escalar montanhas de conhecimentos complexos, estudar criativamente
e realizar muita reflexão. Trabalhar com boa vontade sem
dúvida é importante. Porém, sem o hábito
de ler criativamente ninguém consegue lograr o nível
almejado. Para ser fisioterapeuta competente e aceito socialmente
será preciso ciência, inteiração, conhecimento
pertinente.
Para finalizar gostaria de citar um professor "de verdade",
Gabriel Perisse, autor de vários livros sobre leitura e escrita:
"O fato, no entanto, é que muitos
[fisioterapeutas] continuam alheios ou, o que é pior, avessos
aos livros. Para o resto da vida, só lerão “de
vez em quando”: manuais técnicos, o caderno de esportes
do jornal, a revista mensal ilustrada, qualquer coisa em que o interesse
imediato pelo assunto supere a barreira de uma incapacidade quase
física para ler textos exigentes e substanciais".
Até breve,
Por Pedro Paulo Monteiro

|