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da Fisioterapia. Disponível em: http://www.portaldafisioterapia.com.br/
site/ , publicado em 13 de Janeiro de 2006.
Apesar de saber que a morte
é processo inexorável a todos os seres - et moriemur
-, não raro se ouve a expressão: “se eu morrer...“,
ao invés de “quando eu morrer...”. Todavia é
fundamental saber que morte e vida são processos, início
e fim são construtos.
Pouco se sabe sobre a morte, como também acerca da vida.
Ao ser feito a pergunta o que é vida surge o problema de
como conceituá-la. Lynn Margulis, uma das maiores biólogas
planetárias da atualidade escreve no livro O
que é vida?:
“A vida,
até onde a conhecemos, restringe-se à
superfície deste terceiro planeta mais próximo
do Sol. Além disso, a matéria viva depende
profundamente desse sol, uma estrela de médio
porte nos confins da galáxia conhecida como Via
Láctea. Menos de um por cento da energia solar
que chega à Terra é desviado para processos
vitais. Mas o que a vida faz com esse um por cento é
assombroso. Fabricando genes e descendentes a partir
da água, da energia solar e do ar, formas encantadoras
mas perigosas misturam-se e divergem, transforma-se
e poluem, matam e nutrem, ameaçam e superam.
Enquanto isso, a biosfera em si, mudando sutilmente
com as idas e vindas da cada espécie, vai continuando
sua vida há mais de três bilhões
de anos.” p.20.
A diversidade e capacidade de transformação
dos processos de vida são tão fascinantes que a certeza
da magia se revela em cada um de nós. Ao observar o ocaso
do dia, o movimento incessante das marés, o desenvolvimento
do corpo, a cura de uma enfermidade, a concretização
de insights. O continuum, surgimento e desaparecimento das criaturas
são o cenário perfeito do milagre que nos sustenta.
Contudo, a morte é também processo dinâmico.
Ao pensá-la surge a questão: como saber o que ela
é? Esse questionamento sempre fez parte do status sócio-histórico
dos humanos, e com o avanço exponencial das tecnologias médicas,
maiores as agruras às questões éticas do morrer
e do viver.
Viver e morrer são processos indissociáveis. Um não
existe sem o outro. Por isso a idéia de “envelhecer”
pode ser compreendida como processo de tecedura conjunto do viver
e do morrer contínuo. Como na expressão de Heráclito
de Éfeso (7 séc. a. C): “Morre-se da vida, vive-se
da morte”.
Infelizmente as pessoas acreditam que morrer é um problema
apenas dos mais velhos, por isso a negação explícita
do envelhecer. Ainda acham que os jovens não morrem, ou se
morrem não deveria. Quando os mais velhos estão à
beira da morte as pessoas costumam dizer que é o sofrimento
do fim. Sofrer não é privilégio de quem morre.
Pelo contrário, sofrer é condição irrestrita
da vida. Trava-se a batalha sem fim para se ter condições
propícias no momento em que a vulnerabilidade assola a vida.
Observo pessoas sofrerem mais em vida do que em morte. O problema
da morte não é a morte em si, mas como os vivos a
tratam. Em suma, a morte é problema dos vivos. Ninguém
aceita a situação do moribundo no leito de morte porque
as pessoas não aceitam ver a sua própria morte. O
problema continua a ser a projeção.
Morrer é um processo tácito quando reverenciado. Os
murmúrios da morte são escolhas individuais. O sofrer
no leito de morte ocorre quando há resistência. Sofrer
é resistir ao processo. Sem dúvida, não é
simples abandonar a maior referência que temos do mundo, o
nosso corpo. Contudo, não abandonaremos a nós mesmos
se deixarmos o corpo. O que nos faz ser quem somos é muito
mais que o nosso corpo. Somos consciência e, portanto, somos
transcendência.
Para muitos a crença da vida após a morte é
assunto religioso. Atualmente, a física quântica revela
paradigmas muito mais abrangentes. Não podemos pensar com
o intelecto do séc. XVII. É preciso renovar o aprendido.
Muitos cientistas trabalham arduamente para inaugurar novos conceitos
e perspectivas à vida e a morte.
Quem assistiu ao filme What the bleep do we know?, que no Brasil
teve o título “Quem somos nós?”, observou
que importantes pesquisadores estão discutindo a vida/morte
por novos ângulos. Dentre os diversos pesquisadores gostaria
de citar Amit Goswani e Fred Alan Wolf, ambos físicos, porém
com abordagem que já transcenderam a ciência comum,
e inauguram modos complexos de compreensão da vida, e de
nossa “realidade”. Atualmente sabemos que somos átomos
interagindo com outros átomos. No âmbito mais profundo
de nós mesmos somos uma ínfima parte do cosmos, onde
reside beleza, ordem, organização. Nesse complexo
e inenarrável sistema universal somos um com os outros. Este
é o sentido nobre da solidariedade: ser humano é ser
solidário.
David Bohm, importante físico, faz interessante analogia.
No microcosmo somos semelhantes a pontos pretos de uma imagem de
televisão sem sintonia. Somos pontinhos pretos interagindo
dinamicamente com outros pontinhos pretos. A função
de nosso cérebro é dar coerência e significado
aos pontos. Quando adquirimos um significado o denominamos de real.
A partir daí passamos a acreditar que somos alguém.
Alguém que crer. Tudo é construído pelo amalgama
de nossas crenças. Sem elas não teríamos liberdade
de construir pensamentos e realidades.
Compreender que somos nossas crenças ajuda-nos a expurgar
a presunção do saber total. Sabemos o que acreditamos.
Nada nos será revelado senão crenças. A natureza
parece apreciar se esconder de nossos olhos ávidos de conhecimento.
Mais uma experiência de morte
Semana passada, tive mais uma experiência
marcante em minha vida profissional, uma de minhas “parceiras
de aventura terapêutica” (costumo denominá-las
assim), adentrou ao processo limite de vida/morte.
Atendo pessoas acima de 60 anos, e todos sabem que morrer é
mais comum, apesar de não ser regra, entre as pessoas mais
velhas. O organismo modifica se preparando à transcendência.
Mesmo que as pessoas não queiram de bom grado soltar as amarras
do tempo, a fim de irem ao encontro da eternidade, não tem
outro jeito senão deixar-se ir. Entendo isso como sendo a
dificuldade da transformação. Morrer é transformar-se.
Aceitar que a todo o momento morremos e nascemos, é fácil.
Porém, aceitar que temos de mudar de rumo na vida não
é assim tão simples. Muitas pessoas têm dificuldades
em defecar para não deixar ir parte de si mesmo, imagine
então o que é deixar-se totalmente. O problema está
na impossibilidade em ser transcendente. Quem logra a capacidade
de largar o ego para ir ao encontro do self (arquétipo divino)
deleita-se, e encontra aprazimento.
Infelizmente, a minha parceira resistiu até o último
instante. Ela dizia querer morrer. Negou comer, beber, falar. Muitos
podem pensar que ela estava deprimida, mas não era o caso.
Ela se debatia, recusando a transformação. Ao mesmo
tempo, dizia querer morrer para se livrar da dor. A dor é
resistência, é evitar o inevitável. Ninguém
sente dor estando em paz. Ninguém padece na compreensão.
Ninguém pena quando sabe se tornar o observador de si mesmo
em algo fluido.
Enfim, ela agonizou (a palavra agonia significa “travar batalha”)
durante uma semana. Eu disse a ela que o mais importante naquele
momento era simplesmente a tranqüilidade, seja para morrer,
seja para viver. Porém, o drama humano é, muitas vezes,
mais trágico do que a própria autocompreensão.
Dependendo da platéia o cenário pode se tornar significativo.
Verifico que na presença dos familiares os gritos são
bem mais agudos e exasperados.
Ainda temos muito que aprender. Não basta compreender racionalmente
que a vida é um cenário de nossas escolhas, sofrer
é recusar o fluxo do rio da vida. É preciso facilitar
a travessia da informação através do corpo,
para finalmente saber que a vida é também a certeza
da morte.
Quero finalizar com as palavras de Etty Hillesum. O texto abaixo
foi escrito pouco antes de sua execução em Auschwitz:
A vida e a morte, o sofrimento e a alegria, as
bolhas dos pés doloridos, o jasmim atrás da casa,
as perseguições, as atrocidades sem número...tudo,
tudo está em mim e forma um conjunto poderoso, que eu aceito
como uma totalidade indivisível e começo a compreender
cada vez melhor para meu próprio uso, sem viver longo tempo
para um dia estar em condições de explicar.. Acertei
minhas contas com a vida, quero dizer: a eventualidade da morte
está integrada em minha vida. Olhar a morte de frente e aceitá-la
como parte integrante da vida é alargar esta vida. Ao inverso,
condenar desde agora à morte um pedaço desta vida,
por medo da morte e por recusa em aceitá-la, é o melhor
meio de só guardar um pedacinho de vida mutilada, que mal
merece o nome de vida. Isso parece um paradoxo: excluindo a morte
de nossa vida, privamo-nos de uma vida completa e, acolhendo-a,
alargamos e enriquecemos nossa vida.
Até breve,
Por Pedro Paulo Monteiro

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