| Entrevista
concedida à Revista Enfoque Gospel,Edição 54.
Ano 5. Janeiro de 2006.
| O
Brasil jovem cede lugar à terceira idade |
- Como se dá o processo pós-carreira
do idoso e como ele lida com a aposentadoria?
Em primeiro lugar é importante lembrar
que a nossa cultura determina o nosso comportamento. Infelizmente,
a cultura do trabalho é ainda enaltecida como fonte de nobreza
humana. Existe um ditado antigo que diz: “o trabalho enobrece
o homem”. Por assim dizer, a pessoa “aposentada”
(a palavra se refere à norma silenciosa do aposento, ou seja,
quem se aposenta deve estar no seu aposento) acredita perder a condição
produtiva e, conseqüentemente, a dignidade. Várias pesquisas
demonstram que, no pós-carreira, os homens sofrem mais do
que as mulheres. O que fica claro é que o brasileiro ainda
pensa que lugar de homem é na rua e no trabalho, enquanto
o da mulher é em casa.
O importante é a mudança de pensamento, pois essas
concepções foram criadas no tempo em que a expectativa
de vida era muito menor. Só para se ter uma idéia,
no início do século XX a expectativa de vida, em média,
ao nascer não passava de 35 anos. Atualmente a expectativa
de vida do brasileiro é de 68 anos. Isso mostra a importância
de elaboração de projetos pós-carrreira, e
conscientização ao aproveitamento saudável
do tempo livre.
- Que imagem do corpo o idoso tem e qual
precisa ter?
Infelizmente quem determina a imagem que
devemos ter ainda é a mídia. Portanto, não
sobra uma boa imagem do corpo aos mais velhos. Muitos querem esconder
a alma pobre em um corpo retocado por cirurgias plásticas.
Por isso, costumo dizer que a porta de saída só se
abre para dentro. Quem espera algo do lado de fora sofrerá
muito com o processo inexorável do envelhecimento. Só
temos duas saídas, ou envelhecemos ou morremos jovens.
- Qual a diferença entre envelhecimento
e velhice?
Envelhecer é processo de viver. Desde
o nascimento até a morte estaremos envelhecendo. Uma criança
de quatro anos é mais velha do que uma criança de
dois. Por isso, somos sempre o velho de alguém , não
tem jeito. A velhice, por outro lado, é categoria social,
ou seja, ela é importante na organização de
uma sociedade em termos burocráticos. Serve para sabermos
de nossos direitos e deveres. No Brasil a velhice continua a ser
determinada pela idade cronológica de 60 anos.
- Como se dá a dinâmica do envelhecimento
no sentido tempo/espaço/movimento? Na
verdade existem dois tempos: o tempo cronológico que é
o tempo do relógio e dos calendários, e o tempo kairós,
interno, que é o tempo vivido, um tempo que pertence a cada
indivíduo como ser único. O tempo é uma abstração.
Outro dia descobri que tinha 39 anos ao invés de 38 como acreditava.
Fui registrado no cartório em uma data, mas minha mãe
me disse que nasci em outra. Será que eu perdi um ano de minha
vida? Claro que não, pois se o tempo me pertence, ele também
me fornece a possibilidade de construir o cenário de minha
vida como eu quiser. Por isso, somos nós a delimitar o nosso
espaço, somos nós a delimitar os limites. O corpo está
no espaço, e é pelo corpo que nos expressamos no mundo.
Expressão e movimento são sinônimos aqui, e acho
a velhice um bom momento para fazermos reflexões mais profundas.
Quanto mais velhos mais lentos. Isso pode ser visto como ruim, mas
se somos chamados à reflexão, é preciso obediência
e entrega. Na juventude não damos atenção a nós
mesmos como deveríamos, na velhice o tempo nos pertence de
outra maneira. O importante é não confundir, e acreditar
que a juventude é melhor do que a velhice. São momentos
diferentes da vida, só isso. -
Que correlação realmente existe entre doença
e velhice? Doença é
um estado de impossibilidade de realização dos desejos.
Portanto, nem todos os velhos são doentes. Porém, a
doença é mais comum na velhice devido à vulnerabilidade
biopsicossocial do indivíduo. Não devemos mais pensar
na separação física, psíquica, social.
Somos inteiros, e estamos no cenário cultural. Isso significa
que não fazer o que se deseja é um estado de doença.
- Como o cérebro funciona a fim
de perceber a velhice? O cérebro
é um órgão interessante porque ele é plástico,
isto é, ele tem a capacidade de aprender e reaprender durante
toda a vida. Portanto, a velhice é percebida de acordo com
a perspectiva individual. Se a velhice é aprendida, necessitamos
de melhores modelos em nosso país. -
Por que principalmente o idoso precisa de estímulos sensoriais?
Em nossa cultura ainda existem falsos estereótipos
de velhice. As pessoas acreditam que os mais velhos precisam do
“aposento” para descansar a máquina fragilizada
pelo tempo. Isso não é verdade. O corpo não
é uma máquina, como se pensava no séc. XVII.
O corpo é vivo e, portanto, nasceu para aprender. Quando
deixar de aprender morrerá. Então, enquanto houver
vida existirá necessidade latente de aprendizado. Só
podemos aprender pelos sentidos. São através dessas
portas que evoluímos no mundo.
- Necessidade do movimento do corpo para
um idoso
O que é vivo tem movimento. É
pelo movimento que nos relacionamos com o mundo e com os outros.
Assim, estar dentro do “aposento” para descansar do
que não se fez é um grande perigo. Muitas vezes sou
chamado para avaliar pessoas que vivem anos dentro de quartos. Essas
pessoas apresentam sempre o mesmo quadro: atrofia dos músculos,
diminuição de força, “preguiça”
(desmotivação), cansaço.
Esse quadro inicia pelo “Isolamento Protetor”. Freqüentemente
queremos fazer tudo pelos mais velhos, não o deixando experimentar
o movimento. Isso degrada o corpo rapidamente, e não o envelhecimento.
Precisamos ser corajosos para romper com as nossas margens, com
os limites de segurança para alcançarmos novos aprendizados.
Entrevista
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