| Entrevista
concedida à Revista Enfoque Gospel,Edição 54.
Ano 5. Setmbro de 2002.
| ESTOU
PERDENDO A MEMÓRIA! |
1 – Fale um pouco de sua especialização
e experiência com a Terceira Idade.
Falar sobre minha especialização
e experiência profissional é fazer um passeio nas trilhas
de minha memória. Cada história possui sua memória,
contendo cores e sabores, formas e direções, rastros
e compassos. Isto é memória: aquilo que está
em nós, aquilo que nos forma e nos situa na vida, no tempo
e no espaço.
Gosto de falar de minha história porque assim posso dar presença
ao tempo passado não deixando que ele se perca.
Iniciei minha trajetória profissional como fisioterapeuta
atendendo em domicílio pessoas acima de 60 anos, que possuíam
deficiências físicas com distúrbios de movimento.
Lembro-me de aprender na faculdade que o corpo era igual a uma “máquina”
que se desgasta com o tempo, e que depois de uma certa idade, este
corpo vai ficando frágil e vulnerável. Assim, pensava
que o corpo de uma pessoa idosa era um corpo debilitado, ou seja,
doente. Um corpo que não tinha mais chances de mudar, ou
mesmo de aprender novos caminhos para sua independência. Ao
mesmo tempo em que tinha estes conceitos aprendidos presenciava
grandes mudanças durante as sessões terapêuticas.
Fui percebendo que havia uma plasticidade neural ainda muito dinâmica
naquelas pessoas acima de 60 anos e mais. Plasticidade Neural é
o fenômeno pelo qual a estrutura e a função
cerebral é modificada pela experiência. Por isso, resolvi
fazer minha especialização em Neurologia. Queria compreender
os segredos da organização cerebral. Depois disso,
ainda não satisfeito, entrei para o Mestrado em Gerontologia
(ciência que estuda os aspectos biopsicossociais do envelhecimento)
da PUC de São Paulo para poder pesquisar melhor sobre a Representação
Mental dos idosos.
Assim, pesquisei durante dois anos, convivendo duas a três
vezes por semana, três mulheres acima de 70 anos. Todas tinham
dificuldades em andar, com muito desequilíbrio postural.
Porém, o aspecto que mais me chamava atenção
não eram os distúrbios dos movimentos, mas sim a privação
sensorial – diminuição dos estímulos
sensoriais, principalmente o tato.
A privação sensorial era em decorrência ao isolamento
social e familiar em que estas mulheres se encontravam. Viviam num
pequeno mundo de quatro paredes: o quarto. Ali não tinham
com quem se relacionar, como também experimentar a vida.
Como podemos experimentar a vida sozinhos, isolados, sem objetivos?
Deste modo não vivemos, sofremos a angústia de nada
acontecer, esperando a morte como forma de transformação.
Nestes dois anos de convivência pude verificar que a transformação
do corpo e da alma reside no encontro, na ressignificação
da história de vida a partir da otimização
da memória. Ou seja, somos o que somos porque temos uma memória
e não queremos perder nossa história. Por isso, ela
precisa ser contada e respeitada pelo outro que a ouve. Este é
fundamentalmente o meu trabalho como Gerontólogo: Ressignificar
histórias de vida, facilitando a transformação
do corpo, criando possibilidades.
Fiquei tão entusiasmado com esta pesquisa que resolvi compartilhar
com o público em geral, escrevendo o livro: “Envelhecer:
histórias, encontros e transformações”
pela Editora Autêntica. Livro indicado ao Prêmio Jabuti
de 2002.
O livro narra a história de vida de três velhas mulheres,
que redescobriram o valor de seus corpos e de suas vidas. Muitas
vezes acreditamos que depois de uma certa idade não modificamos
mais, vamos esquecendo de viver. Isso não é verdade
porque tudo modifica. A lei da vida é mudar. Não existe
estabilidade no viver, portanto, viver é envelhecer. A cada
momento estamos envelhecendo. Precisamos mudar a idéia de
que somente os velhos envelhecem. Desde a concepção
até a morte, estamos envelhecendo. Da mesma maneira que somos
sempre o velho de alguém, porque sempre existirá uma
pessoa menos velha que nós.
2 – Quais os fatores que mais influenciam
na perda da memória?
Excetuando a degeneração patológica
do cérebro, como por exemplo a Doença de Alzheimer,
tenho observado freqüentemente dois fatores que levam à
perda de memória entre os mais velhos e também os
mais jovens. A Depressão e a Ansiedade. De modo sucinto,
a memória é formada quando o impulso nervoso passa
de um neurônio (célula nervosa) para outro neurônio.
Para que o impulso realize essa passagem, ele precisa da ajuda da
Serotonina - um neurotransmissor que é uma substância
auxiliadora nesta atividade, mantendo as funções cerebrais.
Existem vários neurotransmissores, mas a Serotonina é
um dos mais importantes na formação da memória.
Se esta substância, por exemplo, encontra-se diminuída
por algum motivo - fatores que podem ser intrínseco ou extrínseco
-, a formação da memória estará prejudicada.
Para que haja aprendizado é necessário ATENÇÃO.
Porém se a pessoa estiver deprimida o sistema nervoso estará
muito debilitado para se colocar atento para uma nova tarefa. Se
estiver ansioso, não conseguirá se fixar naquilo que
precisa aprender. Resumidamente, a pessoa precisa estar equilibrada,
ou seja, nem muito estimulada nem muito inibida para que possa aprender,
isto é, criar novas histórias.
Por isso, é importante dizer que o esquecimento não
está circunscrito somente aos velhos, como também
não significa que seja o início de uma doença
grave como a Doença de Alzheimer ou outras Demências.
Em caso de dúvidas, é sempre importante procurar fazer
uma avaliação médica.
3 – Como a perda de memória
pode ser evitada ou retardada?
Havia antigamente um mito dizendo que o idoso
não tinha muitas chances de aprender porque se acreditava
que após os 30 anos de idade 100.000 células nervosas
eram perdidas por dia. Hoje sabemos que esta teoria não é
verdadeira. Nossas funções mentais aumentam ou diminuem
em qualquer idade, dependendo do nível de estimulação.
Ou seja, o importante não é a quantidade de células
nervosas e sim a qualidade da conexão de uma célula
com outra que se estabelece no aprendizado. Tudo em nosso corpo
precisa ser usado. Quanto mais abertos estivermos para o aprendizado
melhor serão as conexões nervosas e, conseqüentemente,
melhor será nossa memória. É por isso que não
devemos pensar que o nosso corpo é como uma máquina.
Máquinas se desgastam com o tempo, mas o corpo humano precisa
ser usado de modo inteligente para melhorar sua qualidade de vida.
Quando eu falo corpo, estou também me referindo ao cérebro,
porque não temos um corpo sem um cérebro e nem um
cérebro ambulante sem um corpo. Somos seres únicos
e, portanto, nossa memória é dependente de nossa vontade
de descobrir novos caminhos. Devemos ser sempre muito curiosos.
4 – Existe alguma espécie de tratamento
preventivo?
Algumas vezes me fazem a pergunta: Como posso
manter minha memória? Eu respondo: “Interagir é
a melhor solução”. Lembro-me de uma senhora
de 91 anos que atendia que sempre dizia: “Apesar de me sentir
cansada com alguns dos exercícios, sinto-me revigorada com
nossas conversas. Estimula o meu pensar”. Eu acredito que
o exercício físico é muito importante pois
aumenta a circulação sanguínea e a oxigenação
dos tecidos, melhorando o metabolismo cerebral. Porém, não
adianta melhorar a oxigenação tecidual se não
fizermos bom uso de nossas capacidades mentais. Com isso quero dizer
que precisamos de melhores diálogos, assuntos mais desafiantes,
que nos façam pensar, refletir, agir com sabedoria.
5 – Existe uma terapia para tratar problemas
de memória?
A reflexão é fundamental para estimularmos
a memória. Não apenas para estimularmos a memória
como também para ressignificarmos nossa história de
vida. Falamos muitas vezes que os idosos são experientes,
mas o que é ter experiência sem qualidade? Nada. Para
que possamos alcançar experiências com qualidade precisamos
refletir sobre nossas experiências do dia-a-dia.
Quando disse que percebia que havia uma plasticidade neural ainda
muito dinâmica nas pessoas acima de 60 anos e mais, me referia
a esta capacidade das pessoas em mudarem e aprenderem coisas novas.
Mas para isso, elas necessitavam de estímulos agradáveis
e não a repetição. Nosso cérebro adora
novidades, porque ele é dinâmico. Por isso, estímulos
criativos são sempre bem-vindos. Por que gostamos tanto da
arte? Porque ela nos instiga, questiona e nos faz pensar.
6 - Como a Gerontologia trata o assunto?
A Gerontologia possui uma técnica interessante
de trabalho conhecida por “Oficina de Memória”
que não apenas otimiza a memória como também
auxilia na ressignificação da história de vida
dos participantes do grupo, além, é claro, de um espaço
excelente de convivência. Somos seres gregários e,
portanto, precisamos dos outros como fonte contínua de estimulação.
Dentre os vários modos que podemos trabalhar a oficina de
memória, existe uma técnica que chamo de “Objetos
contadores de história”. Esta técnica visa reencontrar
fragmentos perdidos da memória. Ou seja, você já
parou para pensar naquele travesseiro que tinha somente o seu cheiro
e que te confortava todas as noites? Ou qualquer outro objeto que
trazia ou ainda lhe traz alegria, ou mesmo melancolia?
Estamos sempre rodeados pelos objetos, e eles acabam por contar
um pouco de nossa história. Eles fazem parte de nós.
Isso porque o nosso cérebro apreende todos os objetos em
forma de imagens mentais. Assim, o que antes se encontrava fora
passa a pertencer a nós. Por isso é um absurdo não
permitir o idoso levar consigo seus pertences quando ele vai morar
em outro lugar como casas de repouso, residência de filhos
ou mesmo quando vão para hospitais para internações
de longo prazo. Os objetos nos localizam no tempo e no espaço
e, assim, eles possuem uma grande ajuda na estimulação
da memória.
No meu livro eu conto uma passagem interessante que vivenciei com
uma mulher de 86 anos. Havia anos que ela não arrumava suas
gavetas. As empregadas se incumbiam do serviço não
deixando que ela fizesse nada. Ela apenas reclamava comigo. Então
a propus arrumar as gavetas junto a ela. Enquanto íamos encontrando
objetos antigos, ela ia resgatando seu passado, lembrando e me contando
a sua história. Cada objeto reencontrado era um lampejo na
mente e no coração daquela senhora que já estava
perdida no tempo. Relembrar a história nos gera muita satisfação
e mobilidade em nossas vidas.
7 – A memória está diretamente
ligada à concentração?
“Concentração” significa
dirigir-se para um mesmo ponto, ou seja, focalizar em algo com atenção.
Por isso, a memória é dependente da atenção,
da vontade e interesse pelo aprendizado. Muitas vezes não
sabemos onde colocamos as chaves, o nome da pessoa que acabou de
se apresentar, porque não estamos focalizados, não
temos interesse, estamos pensando em outras coisas. Hoje em dia
é muito comum ficarmos angustiados devido à diversidade
de informações. Com a Internet a distância diminui
e a informação transbordou, facilitando e dificultando
também o aprendizado, ou melhor a construção
do conhecimento. Gosto de dizer, quando ministro minhas aulas de
Gerontologia na Universidade, que a informação está
acessível a todos, porém a construção
do conhecimento está ficando à deriva. Se quisermos
aprender precisamos diminuir a marcha e focalizar, e manter o foco.
A diminuição das atividades na velhice é uma
boa oportunidade para o aprender. Por isso vários programas
de Universidades Abertas para a Terceira Idade (UNATIs) estão
sendo lançados cada vez mais no país. Esta é
uma fase da vida importante para o aprender. É uma necessidade
fisiológica e existencial.
No meu livro colhi um relato de uma senhora de 75 anos que, após
descobrir que poderia aprender mais, construindo conhecimento com
liberdade, dizia: “Sei que cada dia envelheço mais
e mais, mas parece que a minha idade ao invés de aumentar
está diminuindo. Acredito que seja devido à realização
dos meus sonhos, que não consegui realizar na minha infância
e nem na mocidade. Eu estou conseguindo fazer tudo sem medo, sem
receio, mais segura, com certeza do que estou fazendo”.
É fantástico perceber que podemos resgatar a nossa
memória. Somos historiadores de nós mesmos. Por isso,
somos autores de nossas próprias histórias. Assim
temos escolhas, livre arbítrio para focalizarmos naquilo
que mais interessa, criando um enredo bem-feito e reescrever ou
escrever pela primeira vez uma história que nos satisfaça
com colorido e muito brilho.
8 – É certo afirmar que perdemos
a capacidade de concentração, e não a memória?
Perdemos a concentração quando
não queremos mais entrar em contato com nós mesmos
ou com nossas histórias. Existe uma teoria que diz que entrar
no labirinto do esquecimento pode gerar a demência, pois você
pode ir embora e não saber mais como retornar. No meu livro
tem um relato de uma outra pessoa de 86 anos que dizia: “Desde
que o meu marido morreu há 30 anos, não consigo mais
dormir em paz. A saudade parece buscar o momento em que vou dormir
para me atormentar. Quando me lembro dele a saudade se transforma
em sofrimento[...] Na hora que deito a minha cabeça no travesseiro,
vem uma enxurrada de coisas do passado que não quero mais
ficar me lembrando. Isto me fere muito. É por isso que não
consigo dormir sem os remédios. Eles me livram, de certo
modo, do tormento [...] Tudo em minha vida perdeu sentido depois
que meu marido morreu”. Muitos optam pelo esquecimento, pois
lembrar fere. Sem dúvida precisamos ajudar estas pessoas
a buscar novas memórias, novas paisagens mentais onde possam
se regozijar com sua trajetória, e não mais ficar
carregando o passado como peso morto.
Trechos de alguns depoimentos de mulheres idosas
do livro “Envelhecer”
Sei que cada dia envelheço mais e mais,
mas parece que a minha idade ao invés de aumentar está
diminuindo. Acredito que seja devido à realização
dos meus sonhos, que não consegui realizar na minha infância
e nem na mocidade. Eu estou conseguindo fazer tudo sem medo, sem
receio, mais segura, com certeza do que estou fazendo. Pág.
253 depoimentos de Yara.
Eu tenho buscado na minha vida a alegria
perdida e estou conseguindo. Nós só temos uma vida.
É tão bom contar piada, rir, brincar. Eu tenho que
fazer bem a mim mesma, por isso faço aquilo que tenho vontade.
Estou me sentindo uma pessoa feliz, estou leve.
Pág. 243 depoimentos de Yara.
Eu não sinto o tempo passar porque
sempre tenho novas idéias, idéias boas. Eu sempre
tento pensar em realizar alguma coisa, tenho os meus sonhos, minhas
fantasias. Pág. 231 depoimentos
de Yara
O primeiro beijo foi direto na boca, na
varanda da minha casa. Nós estávamos sentados, e ele
olhava muito para os meus olhos e para a minha boca. Naquele momento
eu sentia muita vontade que ele me beijasse, estava muito ansiosa
por carinho, amor que não tinha. Pág.
227 depoimentos de Yara
Se cada um que encontrasse pelo chão folhas ressecadas, as
pegasse e fizesse um carinho, tenho certeza que elas agradeceriam
e ficariam felizes. Pág. 221
depoimentos de Yara
Tive que me desfazer de tudo que tinha.
Eu vendi a cama, os meus móveis, o meu sofá que tinha
acabado de ser reformado, estante, vendi tudo. Eu me lembro de ficar
muito triste quando via as minhas coisas indo embora. Passei por
tudo isso, mas a gente precisa ser forte e corajosa senão
não dá não. A gente sente, mas... agora eu
não sinto mais a falta das coisas, eu me acostumei a não
ter mais nada. Agora eu tenho o meu corpo, este ninguém pode
me tirar... Foi a única coisa que me restou. Eu já
até me acostumei com o meu cantinho. Eu não posso
reclamar. Pág. 204 depoimentos
de Francisca
Hoje eu consigo entender minha coragem e
força no passado, porque hoje, felizmente, posso ler coisas
lindas, e então vou ligando tudo e agradeço a Deus
por tudo o que passei ou que resgatei. Pág.
217 depoimentos de Yara
A vida deve ser vivida até que a
última missão seja cumprida. Pág.
207 depoimentos de Francisca
"Nós, na velhice, temos que
mudar para ficarmos mais interessantes". Pág.
180 depoimentos de Carmen
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