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ENVELHECER: HISTÓRIAS, ENCONTROS E TRANSFORMAÇÕES
Sente-se
diante dos fatos como uma criança e prepare-se para sacrificar
todas a noções preconcebidas, siga humilde por toda
parte e por todos os abismos a que a natureza o levar, ou você
não aprenderá nada.
(T. H. Huxley)
Um observador que se sentar à beira de
um rio para contemplá-lo em silêncio verá que
as águas correm sempre e sempre, em um movimento ininterrupto.
Poderá constatar também o quanto o fluxo do rio é
mantido ou acelerado pelos obstáculos encontrados pelo caminho,
como galhos de árvores, rochedos ou mesmo a estreiteza das
margens em determinados pontos do seu percurso. Estes obstáculos,
porém, nunca poderão cessar o fluxo do rio, ao contrário,
possibilitarão novos modos de ritmo, evidenciando sua força
e beleza.
No fluxo do rio não há tempo nem
lugar, apenas continuidade. O rio está em todos os lugares
ao mesmo tempo, portanto, o tempo linear passado, presente
e futuro não pode fazer parte dele. O que existe é
o momento presente aos olhos do observador, que é um ser
situado no espaço e no tempo, criado por ele mesmo como ponto
de referência. Desta maneira, o que ele pode conter é
apenas aquele pequeno recorte do rio, não sendo possível
antever o seu destino. Mas a dúvida persiste: qual a direção
do rio? Qual o destino das águas? A resposta é simples:
não podemos saber, pois as águas só possuem
a certeza da mudança a cada obstáculo, a cada bifurcação
encontrada em seu trajeto. A única certeza é que o
rio somente existe porque há um observador para contemplá-lo,
caso contrário, ele desapareceria.
Entretanto, a dúvida persiste e o observador
é instigado a buscar respostas para compreender o que lhe
falam as águas. Toda dúvida gera ação
e, através de seu corpo, o observador caminha em direção
à experiência que se espiritualiza em conhecimento,
ou melhor, ele dependerá do visível para compreender
o invisível.
O invisível é a própria
imagem refletida na água, quando o observador aproxima o
seu rosto em direção ao rio. Ele não pode alcançá-la,
mas percebe que parte dele pertence ao rio, e que mesmo fluindo
o rio levará consigo sua imagem. Do mesmo modo, o observador
percebe que o rio está dentro dele porque foi possível
contemplá-lo, formando assim uma unidade. Isto é,
se o observador contém dentro de si o rio, o rio também
contém o observador. Assim, o observador encanta-se com as
águas cristalinas preenchendo o seu ser, percebendo agora
estar pertencendo ao absoluto, a totalidade. Ambos são possibilidades,
sem fronteiras, são fluxos dinâmicos revelando o mistério
da vida.
Este é o princípio da existência,
composta por movimento, ritmo e dança compartilhada. Por
trás desse movimento encontra-se a certeza da mudança,
ou melhor, enquanto o observador viver, ele estará marcado
pela ação e transformação. Então,
pela escuta do som das águas do rio, o observador poderá,
finalmente, compreender que a vida é o próprio rio
admirado por ele, e a permanência não pertence em hipótese
alguma a ele.
A metáfora do rio poderá ser encontrada
em vários pontos desse livro. Eu decidi por utilizá-la
porque a metáfora nos possibilita romper momentaneamente
com nossa lógica linear de pensamento, abrindo passagem para
a compreensão da linguagem da natureza, que se fundamenta
na relação que mantém coeso o tecido de todos
os elementos vivos, e não nas partes isoladas pelas quais
muitos ainda acreditam ser a única e verdadeira forma de
entender a natureza viva. Assim, tentarei esclarecer que a vida
humana possui o mesmo processo do fluxo do rio. Um processo incessante,
formado por ritmos singulares em que surgem obstáculos, correntezas,
redemoinhos, destino incerto, beleza e força contínuas.
Quando me refiro à vida, remeto-me diretamente
ao processo do envelhecimento, porque envelhecer e viver são
processos indissociáveis. Desenvolvemos uma infinita rede
de relações por meio de várias histórias
que colhemos e tecemos durante todo o percurso de nossas vidas.
Estamos desde a concepção, envelhecendo e vivendo,
vivendo e envelhecendo, nunca sendo os mesmos, porque envelhecer
é um processo contínuo de transformação
do ser humano como único em seu tempo vivido.
Este livro surgiu a partir de um questionamento
profundo, quando observava mudanças consideráveis
na estrutura corporal dos velhos atendidos por mim. Percebia que,
além da técnica terapêutica utilizada, algo
mais existia, mas não podia compreender, não conseguia
enxergar com o meu olhar mecânico-funcional. Precisava aproximar
o meu corpo em direção ao rio da vida para ver minha
própria imagem refletida para, finalmente, poder escutar
o que me falavam as águas.
Lembro-me de minha primeira experiência
terapêutica, quando fui chamado para atender a domicílio
uma mulher de 80 anos, que havia sofrido uma queda e fraturado o
fêmur. Era uma experiência nova e assustadora porque
não tinha muito conhecimento e nenhuma prática de
atendimento domiciliar, pois isso envolvia um aprendizado muito
mais amplo, que eu não havia obtido na faculdade de Fisioterapia.
Era uma relação mais direta com o velho que sofria
e também com a sua família. Nesse momento, estava
longe de tudo que pudesse me dar segurança, estava no mar
revolto da profissão, onde aprendemos que precisamos ser
competentes acima de tudo. Agora era por minha conta, dependeria
de minhas ferramentas, que não eram tantas assim. A minha
única segurança ilusória era a utilização
do título fictício de "doutor" como escudo
de proteção, uma fronteira que delimitava hierarquicamente
o imortal do mortal sofredor. Só mais tarde fui verificar
que qualquer relação terapêutica é um
processo recíproco, ou seja, eu sofria também, mas
estava anestesiado para poder perceber o meu próprio processo,
pois o meu corpo já havia construído um escudo de
proteção.
Hoje percebo o quanto a fragilidade e a insegurança
diminuem a possibilidade de conhecermos a nós mesmos. Por
isso, assumimos atitudes profissionais preestabelecidas para sermos
aceitos dentro de determinados modelos. Modelos estes que promovem
não somente o enrijecimento do corpo como também o
encarceramento da alma, retirando-nos por completo a capacidade
intrínseca de criação e inovação,
tornando-nos insensíveis e menos humanos.
O tempo passava e, aos poucos, ia desconstruindo
sozinho o aprendizado recebido, que classificava os velhos como
"porcelana". Se não houvesse cuidado, poderia quebrá-los
a qualquer momento. Ao mesmo tempo, construía uma nova forma
de atuar. Começava a ver as possibilidades aumentarem, percebendo
que o atendimento a estas pessoas só poderia dar resultados
satisfatórios se fossem conjugados conhecimento, coração
e mente. E isso me fascinava. Porém, percebia a distância
de algumas respostas e sempre faltava uma outra peça do quebra-cabeça
para preencher o entendimento dos problemas que iam surgindo. O
universo humano ia além dos manuais, porque os seres humanos
não eram máquinas, como tinha aprendido, portanto,
não adiantava usar manuais. Estes são de grande ajuda
no entendimento do funcionamento das televisões, liqüidificadores,
carros etc, mas não de pessoas. Isso só fui compreender
mais tarde, pois minha ansiedade em gerar alívio ao outro
era tão grande que buscava cegamente, de forma incessante,
novos conhecimentos teóricos, sem olhar mais de perto para
quem eu estava tratando. As dúvidas eram cada vez mais em
proporções alucinantes.
Retomando a história de minha primeira
experiência como profissional, a "paciente"
esta era a forma de denominação dos meus parceiros
de aventura terapêutica atendida por mim, era uma mulher
que desde a fratura do fêmur encontrava-se acamada e abandonada.
Morava com o filho, a nora e os netos. Ficava em um quarto pequeno
e escuro nos fundos da casa e, junto dela, havia uma máquina
de costura "Singer" aquela com estrutura de ferro,
pintada de preto, com pedal mecânico velha e sem uso
há anos, uma máquina de lavar roupa enferrujada e
um armário onde guardavam tudo aquilo que não mais
possuía valor. O espaço do quarto era pequeno para
tantas coisas sem importância, esquecidas no tempo.
Quando cheguei no primeiro dia, confesso, fiquei
assustado com o aspecto apresentado por aquela senhora, pois não
entendia como em uma casa de aparência tão boa e ampla,
com três carros novos parados na garagem, com uma belíssima
e vasta sala de estar e jantar, pudesse ter um cômodo tão
pequeno para guardar o passado, sem nenhuma preocupação.
Este foi o meu primeiro contato com a exclusão e desvalorização
de uma história de vida.
Todavia, lá estava ela, deitada envolvida
por um cobertor xadrez cinza empoeirado, com os cabelos compridos
caindo sobre o rosto ressecado, apresentando algumas verrugas senis
que quase desapareciam nos sulcos cavados pelas rugas. Não
tinha dentes e sua saliva misturava-se com o encardido da comida
que caía sobre ela, porque nunca se alimentava na mesa junto
a família.
Entrando no quarto, ela me cumprimentou com um
olhar distante, fazendo um grande esforço para levantar a
cabeça e com certa dificuldade em abrir os olhos, porque
seu filho havia acendido a luz, que sempre era mantida apagada.
A janela permanecia fechada o tempo todo, mesmo em dias ensolarados,
como naquele dia. Não sabia há quanto tempo estava
sem ver a luz do sol. Achei tudo tenebroso e deprimente, mas o meu
aprendizado profissional determinava que aquilo "fazia parte
da idade", ou seja, era "assim mesmo". Não
poderia me "envolver emocionalmente" com a situação.
Deveria apenas pensar, naquele momento, no meu plano terapêutico,
pois tinha sido chamado com esta finalidade. Fui logo arregaçando
a manga da camisa para colocar em prática o meu conhecimento
insuficiente, e era eu que deveria dirigir a embarcação.
O poder era fascinante mas, ao mesmo tempo, a
minha estrutura frágil e sensível precisava enrijecer
para suportar a "responsabilidade". Não entendia
ainda que a responsabilidade é simplesmente a habilidade
de responder e não de reter a resposta. O controle, pertencente
ao poder, me levava cada vez mais ao desconhecimento de mim mesmo.
Aos poucos, essa "senhora", que não
conseguia nem ficar sentada, foi restabelecendo suas atividades,
foi retomando sua verticalidade e, finalmente, voltou a dar os seus
primeiros passos rumo à novas descobertas. A janela não
ficava mais fechada, já ia ao banheiro e comia sozinha. Entretanto,
começou também a requerer maior atenção
com a sua aparência. Queria que seu filho comprasse melhores
roupas, uma dentadura nova. Queria melhores cuidados com suas unhas
e cabelos, solicitando a visita de uma manicure e cabeleireiro,
como também queria voltar a utilizar o seu batom vermelho.
Era uma grande transformação. Inicialmente
a família parecia estar satisfeita, porém as solicitações
continuavam a aumentar, queria sair para almoçar com o filho
e os netos nos finais de semana, como também acompanhá-los
em seus passeios. Esta interferência começava a não
ser vista com bons olhos pela família, que tentava a todo
custo persuadi-la de que os passeios exigiriam muito dela, e como
ela era uma "senhora de idade", isso talvez pudesse trazer
algum efeito nocivo para sua recuperação. Mas ela
insistia em seus pedidos sem muito sucesso. Passaram, então,
a pensar na possibilidade dela estar ficando "esclerosada",
porque isso não era do "seu feitio". Não
podiam compreender e muito menos aceitar a transformação
daquele velho corpo que agora buscava novas formas de viver. Estava
reencontrando a liberdade perdida, mas isso tinha o seu preço.
À noite levantava para ir ao banheiro
e à cozinha beber água. Este comportamento independente
estava deixando sua família transtornada e muito preocupada,
pois estava sendo muito difícil "dominá-la",
como diziam. O movimento do corpo de um, sempre vem com a certeza
de mobilizar o corpo do outro, e isso era demais para eles. Relatavam
o medo dela sofrer novas quedas e, então, decidiram colocar
grades altas na cama para impedi-la de sair à noite e também
durante o dia, mas sem resultados, pois seu corpo era sábio
o suficiente para conseguir transpor aquelas barreiras.
Pouco tempo depois resolveram tomar uma atitude
drástica, interromper o tratamento, porque a única
explicação para aquela mudança radical seria
a influência do tratamento. Fiquei transtornado com aquela
atitude cruel, perdi o chão. Sentia-me confuso e perdido
em meus princípios, não sabendo distinguir o certo
do errado, o bom do ruim. Sempre acreditei que somos responsáveis
por nossas relações, o que não sabia era que
não estamos sozinhos nelas e, portanto, deveria respeitar
o movimento daquelas pessoas. Ainda não compreendia a complexidade
familiar, não enxergando-a dentro do processo terapêutico.
Alguns meses depois soube de sua morte. Seu aprendizado
estava cumprido, deixando em mim não apenas uma lembrança,
como também uma grande saudade.
Sem me alongar, gostaria de deixar aqui registrado
uma outra experiência importante que me levou a compreender
a relação terapêutica fundada no princípio
sujeito-sujeito, que discutirei mais adiante. Este princípio
é a força motriz de qualquer processo de transformação
corporal daqueles que participam de uma convivência.
Recordo-me ter tido quase todos os aparelhos
utilizados na prática fisioterápica, com a finalidade
de aliviar a dor de uma mulher de 70 anos que apresentava um quadro
de artrite reumatóide. A doença havia se manifestado
em sua juventude e continuava na "velhice" castigando
aquele corpo. Acamada há quinze anos, possuía deformidades
marcantes e dores contínuas. Seu sofrimento era demasiadamente
intenso, provocando o rompimento da relação com o
seu marido e seus dois filhos, porque não conseguiram suportar
tamanho infortúnio. Restava-lhe apenas a companhia fiel de
uma empregada doméstica que mantinha os seus princípios
fundamentais de cuidado e atenção contínua.
No primeiro encontro, não conseguia saber
por onde começar a tratá-la, porque o seu corpo estava
muito comprometido pelas deformidades articulares características
da artrite. Em cada articulação, as dores sinalizavam
o impedimento da aproximação de minhas mãos;
a sua pele transparente, devido ao uso prolongado de corticóides,
ardia na simples tentativa do toque; os ossos pareciam de vidro;
as mãos tinham deixado lugar para as garras; a beleza desaparecia
na depressão que a consumia. Jamais pude imaginar tamanho
sofrimento. Nem nos livros tinha visto um caso como aquele. Não
conseguia ver nenhuma chance de melhora para ela. Meu pensamento
ficava transtornado; buscava técnicas possíveis para
minimizar suas dores, mas tudo era em vão.
Vivia pensando em algo para lhe dar algum alívio,
mas o quê? Esta era a pergunta que me acompanhava durante
todo o tempo. Comprava todos os novos aparelhos que prometiam abolir
a dor. Eram fios para todos os lados, e ela ia experimentando, através
dessas técnicas, sensações de formigamento,
alfinetada, choque, frio, calor e assim por diante. Tentava de tudo,
mas o máximo que conseguia era apenas um pequeno e insignificante
alívio.
Aos poucos, fui percebendo o dinamismo de seu
processo e, também, através de estudos exaustivos,
resolvi eliminar toda aquela parafernália de fios e técnicas,
que não estavam servindo para nada, para me debruçar
atentamente em sua história. O que ela estava necessitando
era de uma aproximação mais delicada e sutil de minha
parte, um envolvimento mais caloroso que nenhum aparelho poderia
lhe proporcionar.
Percebi que o equívoco estava na ansiedade
para atingir o meu "objetivo terapêutico", não
respeitando seus limites bem demarcados, e isso fazia o meu toque
ser "pesado", como ela mesma dizia. Passei a vê-la
mais de perto, considerando suas queixas e rancores com maior reverência.
Contudo, somente a partir do momento que senti o verdadeiro sentido
da compaixão foi possível mudar aquele quadro. Enquanto
não havia "envolvimento", não poderia haver
compaixão. Então, somente quando essa força
passou a tomar forma dentro de mim, pude perceber que ela era exatamente
como eu. E se eu não queria sofrer, acreditando no meu direito
à felicidade, ela também tinha esse mesmo direito.
O equívoco estava em não aceitar
encarar o sofrimento, tanto o dela quanto o meu, utilizando-se das
técnicas terapêuticas ineficazes para esconder de nossos
próprios olhos a dor que sentíamos.
O dia do verdadeiro encontro aconteceu quando
ela, não agüentando mais o seu infortúnio, resolve
desistir. Foi a primeira vez, desde então, que disse não
querer mais viver. Nesse dia, estava inquieta e profundamente triste,
olhos lacrimejantes, corpo tenso e com muita dor, tomado pela angústia
e depressão. Esta era uma situação que eu nunca
havia presenciado. Fiquei confuso e não tinha solução
para o seu caso, pois acreditava também, de certa forma,
que a morte pudesse ser o melhor caminho para o desenrolar de sua
história. Ao mesmo tempo, sentia-me comovido e este movimento
conjunto irrompeu-se em algumas palavras que não pude conter:
"Eu respeito sua decisão, mas gostaria de lhe falar
o quanto você representa para mim. Foi através de você
que consegui olhar melhor para mim. Sinto agora que sou mais gente,
mais humano, porque aprendi a sofrer com o seu próprio sofrimento.
Antes, talvez, eu fosse como as pedras, rígido na forma,
esperando do outro algum pequeno gesto de contemplação.
Por isso queria lhe fazer um pedido, talvez o último, mesmo
que queira desistir de si mesmo. Me dê permissão para
eu tentar resgatá-la desse mundo escuro e sombrio no qual
está vivendo?"
Com um gesto simples, olhou em meus olhos, e,
abrindo seus braços, pediu-me um abraço. Ela nunca
havia permitido muita aproximação, não tinha
muita habilidade com afetos. Aquele momento foi diferente de todos
os outros momentos de nossa relação. Aproximei-me
dela e com toda sutileza a abracei. Choramos juntos, baixinho, e
nossas almas puderam se encontrar, entrelaçando-se no silêncio
daquele quarto.
Após algumas semanas, foi se sentindo
melhor, encontrando alívio para as suas dores, seus movimentos
foram alcançando maiores amplitudes dentro de sua própria
limitação. Meses depois, para a minha surpresa e dos
médicos que a acompanhavam, iniciou alguns passos com a ajuda
de um andador, reencontrando sua independência e liberdade
aos poucos.
Este foi um dos maiores aprendizados obtidos
em minha vida profissional, mudando por completo minha prática
terapêutica. A partir da grande oportunidade de fazer parte
daquele mundo solitário, onde aquele pequeno corpo chorava
silenciosamente pelos cantos do seu quarto frio e escuro, passei
a ser um terapeuta da corporeidade1.
Através desse encontro fui capaz de compreender
que pertencia também àquela história e, apesar
de minha percepção limitada, pude entender que todos
somos seres sem fronteiras, pertencendo a um mundo no qual todas
as coisas são infinitamente interligadas.
Infelizmente, as pessoas ainda aprendem a conceber
o mundo por um modelo fragmentador, que fraciona tudo, inclusive
os indivíduos, para colocá-los em determinadas categorias.
Aprendem a fazer dessa forma baseada numa crença ilusória
de estabilidade. Estas pessoas buscam a estabilidade em tudo que
fazem, acreditando que se tiverem controle sobre todas as coisas,
estarão mais seguras. Elas encontram-se ofuscadas por uma
percepção limitada, fundamentada em pares de opostos
a respeito da realidade que vivem, classificando e separando o bom
do ruim, o jovem do velho, o bonito do feio, o semelhante do diferente.
Fazem desse modo porque acreditam que assim podem ter um maior entendimento
do mundo.
De tanto separar e mutilar os vários elementos
que constituem suas vidas, acabam por comprometer sua própria
saúde. Pois a saúde só pode ser alcançada
de fato quando conseguimos a integridade em seu sentido mais amplo,
isto é, quando estivermos inteiros e nada faltar. Este é
o primeiro passo para conseguirmos atingir uma melhor qualidade
de vida e felicidade, pela qual lutamos incansavelmente em nossa
caminhada.
Este livro é resultado da minha dissertação
de mestrado em Gerontologia, defendida na PUC-SP, e escrito com
a intenção de mostrar que todo ser humano, independente
de sua idade cronológica, possui dentro de si a certeza da
transformação, a capacidade de mudar o rumo de sua
história, construindo um mundo mais satisfatório e
pleno para o seu viver. Por isso proponho, na primeira parte, uma
reflexão fundamentada na visão sistêmica da
vida, na qual todos os organismos vivos se organizam dinamicamente
por movimentos rítmicos, formados por redes de células,
órgãos e sistemas de órgãos que interagem
uns aos outros, permitindo sua auto-organização. Pelo
fato do organismo humano ser um complexo sistema dinâmico,
atravessa instabilidades contínuas, possibilitando-o alcançar
sempre uma nova estrutura. Em cada mudança, o organismo envelhece,
especializa-se e evolui. Em suma, um organismo vivo está
longe de ser um organismo estável, porque a estabilidade
não condiz com a vida.
Da mesma maneira, os indivíduos em nossa
sociedade são também tecidos em conjunto, formando
uma grande e indissociável rede de relações.
Desse modo, o sentido da complexidade nos remete diretamente ao
sentido da solidariedade e, portanto, nossas atitudes para com os
velhos são determinantes para a nossa própria qualidade
de vida. Para reforçar esta teoria, buscarei a compreensão
no modelo holográfico, no qual preconiza que em toda a parte
há o todo e o todo encontra-se na parte, formando uma totalidade
indivisa. Logo, não faz sentido separar qualquer elemento
de nosso mundo. Por isso, não faz sentido também dividir
a mente, o corpo, o espírito. Somos uma unidade e, sendo
assim, se acreditamos que a velhice reserva ao corpo, a personalidade
e ao comportamento social uma ameaça à sua integridade,
poderemos estar nos programando para um papel que não almejamos
representar.
É vital para um organismo humano a interação
com o seu ambiente e com os outros organismos humanos. Somos seres
gregários, interrelacionados e interdependentes. Portanto,
precisamos receber e expressar, através da emoção
de nosso corpo, o conhecimento necessário que nos auxilie
na adaptação às diversas circunstâncias
da vida. Baseado nisso, descreverei o efeito nocivo da exclusão
e do isolamento que alguns velhos sofrem. Atitude cruel, velada
por uma cumplicidade social silenciosa, que retira não somente
suas possibilidades de experimentação, como também
suas chances de viver.
Sendo assim, buscarei explicitar as crenças
a respeito da velhice, apresentando os atributos negativos e estigmatizantes
que formam a identidade social de velho. Identidade esta que impõe
uma norma a ser cumprida, afastando-o do seu convívio social
e, conseqüentemente, minimizando suas oportunidades de aquisição
do conhecimento.
Para uma compreensão do quanto estes atributos
negativos da velhice podem influenciar a biologia e a própria
vida, discutirei, na segunda parte, a dinâmica das imagens
mentais que formam não apenas os nossos conceitos de mundo,
como também nos auxiliam no reconhecimento de nós
mesmos. Isso porque todos os objetos externos são apreendidos
por nós, a todo momento, pelas sensações corporais.
Estas sensações transformam-se em imagens mentais
que se associam a outras imagens já existentes, construindo
uma imagem global que passa a nos representar como pessoa. Esta
imagem mental imagem corporal é uma representação
de nosso corpo que nos capacita compreender quem somos e o modo
pelo qual o corpo se apresenta para nós. A partir deste entendimento,
mostrarei o quanto a perda, a exclusão e o isolamento na
velhice podem ocasionar lacunas e distorções nessa
imagem, acarretando dificuldades na realização dos
movimentos, como também a perda de referência do próprio
corpo.
Descreverei também como o tato pode resgatar
a sensibilidade do corpo do velho que sofre pela privação
sensorial. Através do toque, recurso que permite a materialização
da solidariedade, podemos trazer, para perto, o velho distante para
comunicar-lhe o afeto necessário, a fim de preencher sua
imagem corporal, possibilitando-lhe reencontrar a autonomia de seu
corpo, tornando-o mais independente e menos isolado, segregado e
lastimado. Sendo assim, a força do encontro é um aspecto
essencial para a transformação corporal de todos que
participam da relação, já que somos seres que
vivem em sociedade, dependentes do outro para realizarmos e alcançarmos
nossa própria emancipação.
Na terceira e última parte, será
relatado o encontro que estabeleci com três velhas mulheres
que, através de suas deficiências físicas, enfrentaram
o paradoxo da vida, descobrindo novos caminhos para suas jornadas,
descobrindo o valor de seus corpos, há muitos anos anestesiados
para a vida, devido a um aprendizado de opressão e limitação.
Através destes encontros, pude experimentar várias
situações e muitos desafios, durante dois anos consecutivos
de convivência, que se tornaram marcantes em meu próprio
processo de envelhecimento. Por isso, foi possível acreditar
no fluxo do rio, o grande mestre, que me conduziu não somente
ao ensinamento, como também permitiu desvendar alguns mistérios
de minha própria história.
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