
A Universidade
Fiz o preparatório para
o vestibular, passei, e fui cursar Fisioterapia. Naquela
época, nem sabia ao certo o que era. Só
me lembrava do alívio que minha mãe
sentia quando fazia tratamento fisioterápico
em um dos hospitais da cidade. Dessa maneira, talvez
acreditasse que essa profissão poderia propiciar
algum tipo de alívio às pessoas que
sofriam. Esse era o meu objetivo desde a infância.
Na faculdade as dificuldades eram
grandes, principalmente pelo fato de estar fora da
vila, me sentindo como um pequeno peixe que escapa
do aquário para um grande rio. Tudo era diferente,
maior e representativo, possibilitando-me recursos
para "ser alguém na vida".
Estudava em tempo integral. Eram
várias disciplinas. O que mais me fascinava
eram os assuntos relacionados à Dor. Não
tive bons professores que me possibilitassem um maior
conhecimento nesse assunto, mas a descoberta começou
a ser feita sozinho. O meu interesse era suficiente
para conseguir um bom entendimento, e fui construindo
o meu saber no passar do tempo.
Na universidade não se discutiam
assuntos relacionados ao envelhecimento, não
havia nenhuma disciplina de geriatria. Em contrapartida,
tinham duas disciplinas de pediatria no currículo.
A única lembrança da faculdade com relação
a esse tema remete-se a uma professora que dizia que
não poderíamos exigir demais das "pessoas
de idade", porque elas possuíam corações
e pulmões fracos e doentes. Sem falar nos exercícios
que ensinava. Ela realmente tinha uma idéia
que todo velho era feito de porcelana, correndo o
risco de quebrar a qualquer descuido. Essa colocação
assustava a todos, e ninguém queria tratar
de gente assim, devido ao perigo anunciado. Porém,
o destino reservara algumas surpresas, e o meu primeiro
"paciente" na prática de estágio
supervisionado foi uma mulher de 60 anos. Surgia,
então, o desafio, que confesso não ter
sido tão difícil assim, pois a minha
relação com os mais velhos sempre fora
mais fácil do que com crianças. Não
tinha muita aptidão com os pequenos.
Início do trajeto
profissional
"A medicina não é
apenas uma ciência,
mas também a arte de deixar nossa individualidade
interagir com a individualidade do paciente"
Albert Schweitzer
Formei-me em 1988. Inicialmente
não consegui emprego. Foi um momento difícil
de transição, queria exercer a função
de terapeuta tão sonhada. Após três
meses de procura, finalmente, fui chamado para atender
uma mulher de 80 anos. Ela sofrera uma queda e fraturado
o colo do fêmur. Era uma experiência nova
e assustadora, porque não tinha conhecimento
suficiente e nenhuma prática de atendimento
domiciliário. Isso envolveria um aprendizado
mais amplo, que eu não tinha tido na faculdade.
Era uma relação mais direta com o velho
e também com a família. Nesse momento,
estava longe de tudo que pudesse me dar segurança,
estava no mar revolto da profissão cujo aprendizado
mostra que necessitamos ser competentes acima de qualquer
coisa. Naquele momento era por minha conta, dependeria
de minhas ferramentas, que não eram tantas
assim. A única segurança ilusória
era utilizar o título de "doutor"
como um escudo de proteção, uma fronteira
que delimita hierarquicamente o imortal do mortal
que sofre. Somente mais tarde fui entender que todo
processo terapêutico é recíproco.
Ou seja, eu sofria também, mas estava anestesiado
para poder perceber isso. Meu corpo havia construído
uma carapaça de proteção que
me isolava de mim mesmo.
Tive de construir sozinho o meu
conhecimento com relação à Geriatria.
Não conhecia muitos livros que pudessem me
ajudar, como também não tinha nenhum
profissional especializado na cidade com quem pudesse
trocar informações.
Via as possibilidades aumentarem
pelo pequeno conhecimento adquirido, sentia que nessa
área poderia conjugar "coração
e mente", e isso me fascinava. Alguns livros
se tornaram manuais do usuário. Acreditava
que poderia conseguir todas as respostas nos livros,
pois esse tinha sido o modo aprendido na faculdade.
Todavia, logo percebi que as respostas estavam distantes,
sempre faltava uma outra peça do quebra-cabeça
para preencher a lacuna dos problemas que iam surgindo.
O universo humano ia além dos manuais, os seres
humanos não eram máquinas, portanto
não adiantava usar manuais para o conserto
das peças. Estes são de grande ajuda
no entendimento do funcionamento das televisões,
liquidificadores, carros, mas não de gente.
Compreendi isso mais tarde. A minha ansiedade em gerar
alívio ao outro era tão grande que buscava
cegamente de modo incessante novos conhecimentos teóricos.
Não olhava mais de perto para quem eu estava
tratando. Assim, comecei a me interessar pelas patologias
dos mais velhos. Estudava tudo relacionado ao tema,
que não era tanto assim. As dúvidas
eram em quantidades alucinantes
De volta às aulas
"A
revelação não flui do inconsciente,
mas sim o domina [...]
Toma posse do elemento humano para refundi-lo:
a Revelação é a forma pura do
encontro"Martin
Buber
No início do segundo ano de formado, em 1989,
fui convidado a substituir uma professora na Faculdade
de Fisioterapia. Tinha pouco tempo para preparar
o conteúdo programático de uma disciplina
que sempre foi considerada difícil para os
alunos: a Neurologia. Porém, eu via o convite
como um grande desafio e a possibilidade de colocar
em discussão algumas indagações
que permeava a minha mente solitária: a relação
terapêutica. Naquele momento, já havia
me questionado acerca dos altos muros erguidos na
formação acadêmica, e as dificuldades
que as pessoas enfrentavam ao sair da universidade.
Tudo pelo fato de não conhecerem outros aspectos
relacionados ao atendimento profissional. Fiquei
entusiasmado com a possibilidade estudar mais amplamente
e, ao mesmo tempo, compartilhar com os alunos minhas
dificuldades no atendimento domiciliário.
No ano seguinte, 1990, fui convidado a substituir
uma outra professora na Disciplina Fisioterapia
Aplicada às Condições Sanitárias,
e também ser Supervisor de Estágio
na Clínica Escola da própria Universidade.
Fiquei exaltado, mas preocupado. Várias oportunidades
desafiadoras surgiam ao mesmo tempo. Não
sabia se seria capaz de realizar tudo com tão
pouca experiência. Entretanto, a idéia
de possibilitar aos alunos alguma compreensão
sobre atendimento mais humanizado era fascinante.
Por isso aceitei o convite.
A nova disciplina se propunha a discutir a prevenção
em saúde. De início fiz a sugestão
de introduzir o tema geriatria como parte do conteúdo
programático, o que também não
foi bem aceito. Lembro-me do questionamento ensurdecedor
do coordenador: "De que forma você vai
ensinar prevenção em pessoas que já
perderam tudo? Doença de velho não
se previne, se trata!". Meu Deus, aquilo me
atingia como farpas afiadas. Sentia a ignorância
me ferir. Contudo, consegui convencer sobre a importância
do trabalho, e fui liberado a ministrar as aulas
de geriatria.
Percebia as dificuldades dos alunos em aceitar a
possibilidade da recuperação e da
prevenção para os mais velhos. Tinha
de provar que era possível a recuperação
independente da idade cronológica. Para isso,
passei a filmar os meus atendimentos particulares.
O que, finalmente, passou a ser visto pelos alunos
com maior interesse e entusiasmo.

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