
O encontro com o estigma
Foi por meio da disciplina de neurologia
que comecei a me aprofundar no tema "sensação".
Ficava intrigado com os relatos subjetivos dos "pacientes"
com relação às dores, parestesias e anestesias.
Foram dois anos de estudo e experiência prática
até surgir em 1991 um convite para fazer o Curso de Aperfeiçoamento
em Hanseníase - patologia tão estigmatizante e
antiga na história da humanidade. Foi o meu primeiro
contato com a pobreza, escassez e negligência de cuidados.
Mesmo presenciando não conseguia acreditar em minha própria
visão, nunca havia experimentado nada igual. Pessoas
sem os mínimos recursos e conscientização
para se tratarem. Por isso, sofriam a deformidade e, não
raro, a mutilação do corpo. Tratei de úlceras
putrefatas. Cuidei de muitos corpos ressecados e anestesiados.
Nada disso foi difícil para mim. Sentia uma grande força
em limpar as feridas (às vezes demorava duas horas para
atender uma pessoa portadora de hanseníase). As pessoas
vinham para o tratamento fisioterápico, portanto, podia
pensar que não era a minha função limpar,
educar sobre higiene, orientar. Mas, sempre me vi como um profissional
sem limites. O outro que necessita de meus cuidados tinham o
que precisavam.
O pior não era a hanseníase
em si, e sim a exclusão compulsória familiar e
social. A partir daquele momento, percebia que precisava entender
os aspectos sociais e psicológicos envolvidos na doença,
assim como também, o preconceito e a discriminação
dos próprios profissionais da saúde.
Quando voltei de Bauru - SP, onde fiz a formação,
queria logo colocar em prática os meus conhecimentos.
Achava que seria somente chegar e arregaçar as mangas
para o trabalho. Porém, não foi tão fácil
assim. A ignorância obtusa era um grande delimitador de
espaços. As pessoas tinham pavor em pensar na hipótese
de abrir um serviço de tratamento para "pessoas
contaminadas por lepra".
Consegui, após muita resistência,
abrir o serviço dentro da própria Clínica
Escola. Portanto, tinha uma condição: os atendimentos
seriam feitos somente por mim, sem a presença dos alunos.
Os atendimentos eram realizados dentro de um banheiro apertado
e desativado. Isto simbolizava o estigma. Contudo, não
me senti desanimado. Confesso que estava achando tudo muito
interessante. Pois, eu já havia conhecido a exclusão,
precisava lutar por eles e por mim mesmo. Sentia-me muito bem
tratando aquelas pessoas. Estava exercitando a prática
do desprendimento, lidando com a minha própria compaixão.
Sempre pensei que a compaixão não surge do nada,
ela precisa ser exercitada. Precisamos nos prostrar ao sentir
para podermos saber o que é a força da compaixão.
Trabalhar com os excluídos somente me fortaleceu. Por
isso, quando eles me agradeciam eu dizia: "Se existe alguém
aqui que tem de agradecer, esse alguém sou eu mais ninguém.
Você precisa compreender o quanto é importante
pra mim esta possibilidade".
Iniciei várias palestras informativas
na cidade, sabia que as pessoas tinham medo da hanseníase
por ignorância. Foram várias palestras até
finalmente conseguir desmistificar a doença. Desde então,
os alunos atendem essas pessoas na Clínica-Escola da
Universidade, fora do banheiro é claro. As pessoas são
atendidas juntas aos outros doentes.
Nunca tinha me deparado com tanto sofrimento,
pois cada paciente hanseniano tinha uma história mais
penosa do que a outra. Lembro-me bem de um rapaz que tinha a
minha idade na época, e apresentava as duas mãos
comprometidas pela patologia; eram verdadeiras garras fixas.
Ele trabalhava como carregador de pedras para conseguir dinheiro
para pagar a passagem para o tratamento. Fiquei confuso com
a situação. Ao mesmo tempo em que esse trabalho
lhe dava algum dinheiro, também o feria. Sempre chegava
com ferimentos abertos na mão pelo esforço. Sabia
que ele não deveria fazer o trabalho, mas como ele poderia
pagar a passagem de ônibus para vir ao atendimento? Tentei
conseguir um passe para deficiente físico, mas foi em
vão. Incomodava-me ver como a crueldade advinha da ignorância.
Eu sabia que a contaminação não ocorria
como as pessoas imaginavam. A doença não existia
mais, ele já estava curado. Hanseníase tem cura.
Porém o estigma era mais forte do que os resultados clínicos.
Um dia, ele disse que havia perdido o trabalho, vendeu o relógio
para continuar indo a clínica. E, quando o dinheiro acabasse,
teria de abandonar o tratamento. Foi exatamente assim que aconteceu.
Depois de um certo tempo ele desapareceu e nunca mais o vi.
Os estudos sobre a hanseníase
me favoreceram no entendimento da relação pele-pele,
ou seja, no significado nobre do contato, que transcende a fronteira
do simples toque. O tratamento desenvolvido com essas pessoas
colaborou muito para eu dar o salto de qualidade na compreensão
da relação terapeuta e "paciente".
O ser humano como unidade
"Começo
logicamente pelo caos. É o mais natural. Nele estou
calmo, porque eu mesmo posso ser, antes de tudo, caos. Esta
é a mão materna. Face à alvura do plano
postava-me com freqüência trêmulo e tímido.
Só depois me dava o impulso consciente e me coagia
à estreiteza das representações lineares"Paul
Klee
Naquele período ainda continuava atendendo os idosos
em seus domicílios, o que faço até hoje.
Sempre envolvido nas histórias de exclusão familiar,
depressão e sofrimento. Comecei então, a buscar
respostas em diversos livros, pois sabia que a fisioterapia
era insuficiente para dar conta de tudo aquilo que estava
vivenciando. Alguns livros forneceram-me algumas respostas,
e fiquei fascinado com a idéia de que o ser humano
poderia ser muito mais do que imaginava. A idéia de
entender a relação corpo-mente me impulsionava
cada vez mais para a percepção de que somos
muito mais do que podemos compreender.
Minha estrutura conceitual sobre as doenças começava
a desmoronar, e via que o que tinha aprendido era somente
uma vertente, a linguagem não continha a idéia
complexa da unidade corpo-mente. Era o caos em meus conceitos,
uma tempestade de vento que derrubava tudo que tinha sido
construído com tanto esforço. Porém,
a calmaria lentamente anunciava chegada, e fui conseguindo
reconstruir uma nova linguagem para o meu discurso, que se
fundamentava mais em aspectos internos do que nos externos.
Passei a ver o corpo como depositário da própria
história. Entretanto, algumas pessoas, com as quais
convivia, achavam que tudo isso era uma grande desculpa para
o desconhecimento científico. Já era tarde demais
para que pudesse parar e retornar ao pensamento mecanicista.
Queria conhecer mais e mais sobre esse assunto. Sentia-me
motivado pelo caos.
Rumo a pós-graduação:
a descoberta da pesquisa
Em 1995, resolvi iniciar uma pesquisa sobre
instabilidade postural e quedas entre os idosos. Estruturei
um questionário, com a ajuda de uma professora da Faculdade
de Educação da instituição em
que trabalhava e fui a campo. Com a ajuda de meus alunos,
conseguimos entrevistar quatrocentos e cinqüenta pessoas
acima de 50 anos de idade. Foi interessante observar que a
maior parte dos idosos corre sérios riscos de quedas
e fraturas sem nenhuma orientação preventiva
dos profissionais da saúde. A instabilidade postural
é obscura porque não é observada em seus
estágios iniciais, e quando é percebida, o idoso,
muitas vezes, já sofreu a queda. Assim, comecei a divulgar
o resultado da pesquisa em sala de aula, dentro da clínica
e em algumas palestras, sugerindo sempre aos alunos e profissionais
que fizessem uma orientação preventiva para
as pessoas que sofriam de instabilidade postural, independente
do diagnóstico clínico.
Surgiu então, no mesmo ano, uma
outra oportunidade: a Especialização em Neurologia
com Docência Superior. Relutei um pouco, porque naquele
momento já começava a ter uma outra visão
de mundo, e não estava muito interessado em rever alguns
conceitos mecanicistas. Porém a titulação
era importante, uma vez que eu era professor.
Tive a oportunidade de encontrar algumas
pessoas interessantes, que compreendiam o meu novo discurso.
Percebia aos poucos que não estava tão sozinho
em meu novo paradigma. Descobri novas leituras, que me fizeram
redimensionar as minhas teorias sobre as sensações,
utilizando-as para a minha monografia, cujo tema foi sobre
a influência do tato no equilíbrio do idoso.
Entretanto, alguns caminhos antes obscuros iam se iluminando.
Passei a entender que a instabilidade postural do idoso é
também uma instabilidade psicológica com suas
conseqüências no âmbito social.
