A reflexão sobre o pensamento
cartesiano
Após a especialização,
procurei incansavelmente, em vários livros,
principalmente dentro da área da psicologia,
uma maior compreensão sobre o ser humano,
pois somente as teorias acerca do corpo físico
já não respondiam às minhas
indagações. Foi, então, que
em 1996, recebi o convite para substituir uma
professora, que lecionava Neurofisiologia na Faculdade
de Psicologia. Estava à frente de um dos
maiores desafios, isto é, concretizar,
em forma de palavras, as idéias que vinha
construindo sobre as teorias psicológicas
e a organização cerebral. Sabe-se
que o entendimento vem antes da elaboração
para a expressão. A oportunidade de trabalhar
com esses conteúdos me instigou profundamente.
Tinha certeza que poderia ir fundo em diversas
teorias, tanto da neurologia quanto da própria
psicologia e filosofia. A partir disso, consegui
encontrar algumas pontes que interligavam essas
disciplinas, fazendo-me compreender o próprio
dinamismo da estrutura corporal. Pude, finalmente,
perceber que o conhecimento não pertence
a ninguém. O conhecimento é como
a onda do mar que flui e reflui na areia da praia,
desfazendo-se em espuma.
Com as novas descobertas teóricas,
resolvi desenvolver a disciplina de forma diferente
do que havia aprendido tanto na faculdade como
na especialização. Necessitava falar
uma linguagem acessível aos alunos de psicologia,
e não impor uma estrutura já desgastada
pelo pensamento médico mecanicista. Foi
quando decidi estudar arduamente, durante as minhas
férias de janeiro, o livro "O Ponto
de Mutação" de Fritjof Capra
(1982). Esse livro foi de grande ajuda para me
situar na história das ciências,
da cultura e da sociedade, como também
me propiciou uma melhor base para a reflexão
do pensamento cartesiano.
Minha primeira aula foi grandemente desafiadora,
pois queria falar sobre a "concepção
sistêmica da vida". Fiquei apreensivo
porque o assunto era muito novo para ser articulado,
visto que o meu pensamento ainda era estruturado
de modo mecanicista e linear para comandar tais
discursos. Portanto, logo fui percebendo que era
correspondido por alguns, com certos olhares que
brilhavam de satisfação, corroborando
minha crença de que esse era o caminho.
Foi difícil conseguir
dar voltas naquele emaranhado de peças
soltas que o programa da disciplina determinava,
tendo, algumas vezes, que voltar a estudar alguns
capítulos de neurofisiologia do Tratado
de Fisiologia Médica que possui sempre
uma explicação extremamente lógica
para os "mecanismos" psíquicos.
Todavia, insistia em buscar a criatividade, tentando
romper com o modelo tão respeitoso e poderoso
de todo professor de Neurofisiologia, que mais
afasta do que aproxima. Acreditava que a visão
sistêmica deveria ser o principal caminho
para a compreensão dos processos psíquicos,
ao invés da hegemônica visão
hierárquica, tão rígida e
determinista.
O agente facilitador
"A um homem nada
se pode ensinar. Tudo o que podemos fazer é
ajudá-lo a encontrar as coisas dentro de
si mesmo"
Galileu
Continuavam os atendimentos
aos idosos, portanto, sob uma nova perspectiva
de relação, na qual não me
posicionava mais como sujeito e o idoso como objeto.
Percebia que o terapeuta não era nada mais
nada menos do que um agente facilitador de quem
quisesse a cura. Iniciava-se o exercício
constante da humildade no qual aliviavam as minhas
couraças. A partir desse instante, a visão
sobre os conceitos de saúde e doença
se modificava em um ritmo galopante, enquanto
me sentia mais uma vez sozinho com as minhas reflexões.
Nenhum terapeuta queria compartilhar com uma prática
que pudesse retirar-lhe o poder. Às vezes,
as dúvidas me cegavam, por não saber
ao certo se essa visão era a correta. Porém,
a intuição me direcionava para esse
caminho. A intuição era forte como
o vento que impulsiona as grimpas de um moinho.
Em alguns encontros, foi-me
indicado um livro que conseguiu redimensionar
os meus conceitos acerca da saúde e da
doença, permitindo-me um melhor esclarecimento
teórico para algumas indagações
antigas: "A Doença como Caminho"
de Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke (1994).
De início, foi perturbador descobrir que
somos os principais criadores de nossos males,
e que a doença seria a materialização
da perturbação da harmonia de nossa
consciência, com a finalidade em mostrar-nos
que o caminho deve ser outro, ou seja, "o
corpo material é o palco em que as imagens
da consciência se esforçam por se
expressar" (Dethlefsen e Dahlke, 1994:14).
Aos poucos, fui conseguindo
alcançar esse sentido paradoxal da doença
e ir colocando em prática nos atendimentos
dos idosos. Na mesma época, foram aparecendo
outras referências bibliográficas
que transformariam definitivamente a minha visão
de mundo. Porém, quanto maior o conhecimento,
maior era também o afastamento dos colegas
profissionais, e mais sozinho me encontrava. Comecei
a ler alguns livros que me fizeram grande companhia,
como por exemplo: "Amor, Medicina e Milagres"
(1989); "Paz, Amor e Cura" (1996); e
"Viver Bem Apesar de Tudo" (s.d.), todos
do mesmo autor, Bernie S. Siegel. A identificação
foi imediata, pois havia algumas semelhanças
com a minha história. Ele, como cirurgião
oncológico encarava a doença sob
uma perspectiva também diferenciada, acreditando
na relação médico-paciente
como um encontro que poderia possibilitar um ensinamento
para o próprio médico. Por acreditar
na humanização da relação
terapêutica, teve de enfrentar com coragem
a própria exclusão.
Pude, enfim, perceber que a solidão é
também um processo necessário, pois,
às vezes, o ruído pode interferir
em determinadas mensagens.
O encontro com o terapeuta
ferido: o Xamã
Minha inquietação
me conduzia a buscas cada vez mais longínquas.
Passei a perceber que precisava ir muito além
dos conhecimentos teóricos. Precisava
colocar o próprio corpo na prática
da cura, pois descobri que no fundo buscava
mesmo era um entendimento para uma questão
existencial. Na tentativa de me aproximar de
algumas respostas, pretendi conhecer um pouco
mais sobre a "energia", o "espirito",
a "alma", que tanto a nova abordagem
assinalava. Dessa forma, iniciei a busca de
mim mesmo, sabendo que a jornada era sem volta,
porque as novas descobertas eram deveras fascinantes.
Resolvi me inscrever em um curso de Xamanismo,
praticado pelos índios norte-americanos,
e a Terapia da Energia Vital (TEV), com algumas
pessoas que vinham de um Instituto na Califórnia,
chamado Esalen. Nos cursos, pude encontrar várias
respostas para as minhas angústias, sucedendo,
mais uma vez, em mudanças de minhas assertivas
acerca da relação terapêutica,
e, principalmente de mim mesmo. Pelo ensinamento
xamânico, pude sentir no próprio
corpo o que se passava no corpo do outro. Este
é o princípio do xamanismo, cujas
intervenções terapêuticas
partem das percepções que os xamãs
detectam em seu próprio corpo. De início
tal percepção era perturbadora,
mas aos poucos fui constatando que não
era o agente facilitador que acreditava ser
até então, mas um terapeuta ferido
que buscava a própria cura a partir do
outro, e o outro era o espelho que auxiliava
na minha trajetória pessoal.
Nesses encontros, verificava, quando abria as
portas da percepção, que os papéis
se modificavam constantemente no dinamismo da
relação. A história de
minha infância se repetia. Colocava-me
como um aprendiz do outro que me ensinava outras
formas de viver.
Fiquei mobilizado e perplexo
com as novas descobertas, podendo concluir,
finalmente, o quanto as pessoas querem delimitar
fronteiras e dominar o outro - o doente - pelo
medo desse outro se mostrar como espelho, refletindo
incapacidade e vulnerabilidade.
