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A expressão da nova abordagem

A partir daí, foram vários livros e outros cursos com linguagens que me faziam sentir confortável, todos com uma visão do ser humano como uma unidade, e não mais aquele pensamento das peças avulsas.
Acredito que o processo de mudança nunca é unilateral, isto é, quando se muda um corpo no espaço os outros corpos, de certa maneira, acompanham essa mudança. E foi assim que aconteceu, um grupo de alunos do curso de fisioterapia se interessou por essa abordagem, solicitando um workshop sobre o assunto. Conversando com uma amiga psicóloga, que tinha idéias semelhantes as minhas, decidimos estruturar o curso "Padrões da Consciência e suas Influências na Estrutura Corporal". Foram vários cursos desde então. Neles expresso com liberdade os meus conhecimentos e tenho a oportunidade de verificar o quanto o corpo é plástico e suscetível à mudança, dependendo das perspectivas da consciência.
A partir desse momento, os idosos que eram tratados por mim mostravam resultados mais significativos aos meus toques do que com todas as imponentes técnicas até então conhecidas.

Rumo a PUC-SP

Todas as disciplinas que lecionava tinham passado por mudanças radicais. Sentia que o momento de tomar novos rumos havia chegado, mas não conseguia enxergar o caminho. Queria estudar mais sobre os aspectos educacionais, pois percebia que a educação era a chave para qualquer tipo de mudança de entendimento. E como experimentava ainda dificuldades com relação às famílias dos idosos que atendia, resolvi cursar no início do ano de 1997, o Mestrado em Educação na Universidade Católica de Petrópolis. Todavia, não conseguia encontrar respostas para os meus questionamentos, ficando frustrado pela dificuldade de entendimento das aulas. Decidi, então, me desvincular no meio do ano. Porém, ao mesmo tempo, me sentia incomodado na busca de um novo caminho que não surgia. Pensei que para haver o preenchimento do novo na vida, precisamos abrir espaços, desfazendo-nos de algumas coisas do passado. E, desse modo, decidi abandonar a disciplina de neurologia, pois já não conseguia propor novas formas em seu conteúdo programático. Foi um momento conflitante. Não enxergava nenhum caminho novo e essa disciplina tinha uma representação especial, ou seja, tinha sido ela a propiciadora de minha inclusão no meio acadêmico. De qualquer forma, não demorou muito para que acendesse uma luz em meu caminho.

Fui convidado pela Direção da Faculdade de Educação, a fazer o Mestrado em Gerontologia na PUC-SP, naquele mesmo ano. Foram momentos de dúvida, mas o desejo de ter a minha primeira formação na área do envelhecimento me impulsionava para qualquer sacrifício. Na verdade, não foi tanto sacrifício assim. A recompensa veio logo, quando pela primeira vez sentei com outros que tinham objetivos comuns, e o melhor, eram de áreas distintas que poderiam me possibilitar um conhecimento mais amplo por meio da reciprocidade de informações. Apesar da dificuldade inicial de adaptação do meu corpo à viagem de 12 horas semanais de ônibus e aos hotéis no centro de São Paulo, tudo era novo e com uma outra dimensão, bem maior do que da vila onde nasci.
Por meio do mestrado descobri novas formas de atuar profissionalmente, propiciando-me uma maior liberdade de pensamento e desprendimento de uma identidade profissional que oprime pelos grilhões do modelo. Um modelo que se enquadra em uma estrutura rígida que impede o ser de ser, corroborando o fazer acima de tudo.

Troca de Experiências

Em 1998, resolvi começar a colocar em prática os meus conhecimentos adquiridos do mestrado, junto aos idosos que freqüentavam a Clínica Escola da Universidade Católica de Petrópolis, onde trabalho como supervisor de estágio. Reuni um grupo de quinze pessoas, que eram tratadas por diversas limitações físicas, e com a participação dos estagiários, realizamos várias dinâmicas com resultados satisfatórios para todos. Chamávamos os encontros de "Oficina de Conscientização Corporal". Foi um trabalho que durou apenas um período, porque a Clínica passou por reformas, e nós perdemos o espaço. De qualquer modo, pude compreender que além do trabalho terapêutico individualizado, a pedagogia em saúde é importante para o restabelecimento da disposição do organismo e do processo de ressocialização do idoso.

Lembro-me também que pouco antes de iniciar o mestrado em Gerontologia, participei de uma oficina que se chamava "Corpo e Movimento" no II Encontro da Terceira Idade. Era a primeira vez que falaria para um grande público de idosos. Foi um trabalho de descoberta relevante, que corroborou minhas reflexões sobre a importância de estarmos programando atividades responsáveis para esse segmento, pois venho observando que muitos velhos buscam tratamento fisioterápico com a finalidade de encontrar um lugar para se relacionar.
Na oficina pude constatar o quanto a deficiência do idoso pode ser transposta pela vontade. Recordo-me que nesse grupo havia uma mulher que apresentava uma seqüela de derrame cerebral, com sérias dificuldades em movimentar sua mão. Ela estava inquieta pelo conhecimento, e tinha a felicidade marcada em cada ruga de seu rosto. Era muito participativa, buscava realizar todas as dinâmicas propostas, mesmo com dificuldades. Em uma das atividades sugeridas, ela conseguiu movimentar a mão, que segundo ela, não conseguia desde o aparecimento do derrame. Ficou muito emocionada, o que comoveu a todos os outros participantes do grupo. Esse acontecimento foi, na realidade, gratificante e uma grande aquisição para todos nós.

Tive um outro encontro com os idosos, em 1998, quando fui convidado por uma aluna da disciplina de gerontologia a abrir a I Semana da Terceira Idade em Cantagalo-RJ. Foi também uma experiência inesquecível. Inicialmente porque o presidente da Associação dos Experientes de Cantagalo ficou surpreso e com ar de decepção quando me viu pela primeira vez, não conseguindo acreditar que uma pessoa mais "jovem", pudesse entender e falar para os mais "experientes". É interessante que os idosos sentem-se perplexos quando alguém se interessa pelo envelhecimento. Já fui questionado por várias pessoas, querendo saber o que me levava a querer trabalhar com "isso", classificando o assunto como triste e deprimente. Os próprios idosos desvalorizam e acham ruim falar sobre o assunto, principalmente os mais doentes.

Eram quase cem idosos em um salão improvisado de um clube, com cadeiras de ferro nada confortáveis. A maior parte deles estavam atentos, alguns cochilavam. Lembro-me de uma pessoa que estava sentada na segunda fila que roncava, era cutucado pela esposa quando o barulho se tornava mais audível. E, sempre que acordava, fazia um movimento com a cabeça concordando com o que eu estava falando. Foi uma hora de palestra e duas horas de perguntas ininterruptas sobre vários assuntos, principalmente, problemas relacionados com a exclusão e a incompreensão por parte dos filhos e da sociedade. Não queriam ouvir a palavra "velho", e tinham uma maior simpatia pela palavra "experiente". Falar sobre idade cronológica, nem pensar, visto que todos diziam ter "almas jovens". A partir daquele momento, fui percebendo que falar sobre o tema envelhecimento é realmente complexo, pelo fato de englobar várias questões pertinentes. Porém, sentia-me mais seguro e preparado pelo conhecimento adquirido no mestrado. Perguntavam sobre tudo - relacionamento, trabalho, filhos, netos, culpa, solidão, sexo, morte. As perguntas, algumas vezes, eram tão pessoais que eu não poderia ter respostas, pois algumas respostas somente são encontradas dentro de nós mesmos. Como o caso de um homem que havia perdido recentemente o filho. Ele perguntou, "O que fazer quando alguém muito próximo morre?". Não tinha como responder baseado apenas em teorias, mas pude responder pela própria experiência que tive com a morte de minha mãe. Observei que, mesmo por meio de lembranças tristes, podemos compartilhar com o outro o aprendizado, e por meio disso buscar ressignificar a memória. Foi um momento em que me senti muito à vontade, porque falava sobre o que acreditava acerca do processo de vida que é também um processo de morte. Disse a ele que cada ser no mundo possui sua trajetória (não me referia a destino), com várias ramificações. No encontro da bifurcação, que é também um ponto de transformação, temos o dom da escolha, que nem sempre se faz conscientemente, mas é determinada pelas próprias experiências de vida. Acreditava que a morte de minha mãe, de certa forma, também tinha sido uma escolha. Contudo, essa era a minha experiência, não podia saber a dele, pois somente ele poderia encontrar a própria resposta.

A partir desses encontros significativos, fui percebendo que esses momentos eram também grandes oportunidades de ressignificar a própria história. Como faço agora, quando escrevo a minha passagem pela temporalidade.


 

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