
Fragmento
do Memorial apresentado ao Exame de Qualificação
do Programa de Estudos Pós-graduados
Mestrado em Gerontologia PUC-SP
Apresentação
Escrever um memorial é entrar e esbaldar-se
no rio das lembranças. Mergulhar e trazer das profundezas
do imaginário os recortes do tempo, cheiros esquecidos, fatos
encabulados, sabores vividos.
A história pertence a uma única pessoa, mas ela somente
faz sentido quando relacionada às histórias das outras
pessoas.
Quando nos lembramos trazemos à tona a
escrita das paisagens, a configuração temporal perdida
que há tempos não sabíamos mais de sua existência.
Em suma, quando lembramos, um novo significado nasce com som de
eternidade.
Não será possível agir sobre
o passado em sua totalidade, pois parto de uma referência
de presente, e assim sendo, cada vez que trouxer à consciência
as lembranças, estas estarão impregnadas de um colorido
da percepção atual. Uma percepção que
desemboca no afluente da ação, por meio de um corpo
que sente vibrar as lembranças, buscando a expressão
a fim de ser compreendido.
Tentarei trazer à tona apenas alguns fragmentos
de minha história que, por vezes, terei a escolha de alongar
ou abreviar, atribuindo uma duração baseada nos significados
concernentes aos conteúdos de meus sentimentos, redesenhando
as imagens do passado, formatadas por um novo significado de presente.
Esse, porventura, é o sentido da memória: buscar na
reflexão um ensaio, trazendo à cena as representações
com os seus diversos significados; propiciar ao historiador encontrar
as âncoras para sua realidade pessoal; permitir lançar
novos olhares nas circunstâncias vividas.
Todo passado é escorregadio, podendo fugir
ou ser interpenetrado por outras imagens que vão se desfigurando
no decorrer do relato. Temos uma tendência de nos refugiarmos
nas experiências mais marcantes, deixando alguns acontecimentos
desembocarem no esquecimento.
Para evocar o passado e descrevê-lo em
palavras, procurarei me abstrair das idéias ardilosas que
surgem na dinâmica do rememorar, buscando direção
apenas nos clarões repentinos, revelados pelo contexto vivido
e seus respectivos contornos, cores, cheiro e lugar no tempo que
flui.
Quando escrevemos uma história, concretizamos
no papel algumas lembranças pessoais que estavam desenhadas
na mente pelos acontecimentos. Por isso, espero que além
de esclarecer o desenrolar de minha trajetória, possa também,
por meio de alguma sincronicidade, estar revelando ao leitor alguns
fragmentos de sua própria história. Isso porque sempre
buscamos o compartilhar de nossas referências com os outros.
O que tanto nos possibilita ensaiar, pela reflexão, novas
cenas no palco da vida.
Interesse pelo tema envelhecimento
Interesse pelo tema envelhecimento
Envelheço, e isso me
faz refletir sobre minha própria história. A história
de um personagem que se encontra no fluxo do tempo, um tempo de
busca e de grandes descobertas.
A seguir, minhas palavras estarão esculpidas em forma de
aprendizado que se estabeleceu durante os anos de experiências
e encontros.
O interesse pelo tema 'envelhecimento'
iniciou-se em minha infância. Ainda me lembro do pequeno apartamento
onde morava, em uma antiga vila de pescadores, que ficava a uns
trinta quilômetros de uma pequena grande cidade.
Era uma vila onde havia um homem chamado Pedro, que tinha uma função
despretensiosa, pescar para o sustento de sua família. Ficção
ou não, essa história ficou marcada em minha memória.
Foram tantas indagações acerca da vida desse personagem,
pois não conseguia entender como um simples pescador, com
uma história também simples pudesse se transformar
em nome de lugar. Hoje, talvez, eu entenda melhor o verdadeiro significado
da simplicidade. Contudo, mesmo que não tenha existido, sua
história ficou marcada em minha própria história,
mostrando-me o quanto fragmentos do tempo vivido de cada um buscam
em outros fragmentos a composição dos significados
da própria existência.
Eu também sou Pedro,
mas não do rio, porque nunca fui pescador. A única
pesca que costumava realizar era dos acontecimentos e das histórias
das pessoas que viviam naquela época e lugar.
No prédio onde morava,
havia muitos vizinhos velhos, que eram respeitados, pelo menos nos
corredores. Não sei dizer como era a dinâmica familiar
daquelas pessoas, porque somente os fatos mais marcantes ficam registrados
na memória, auxiliando, de certa forma, em nossa constituição.
Quando me encontrava com essas
pessoas, lembro-me do esforço que realizava para apresentar
uma postura mais madura, que possibilitasse a aceitação
por parte deles. Essa aceitação era importante, porque
significava a oportunidade de adquirir o conhecimento de suas experiências.
Acreditava que eram pessoas especiais, ao mesmo tempo estranhas,
pelo fato de viverem tanto tempo e passarem por diversas vicissitudes,
e mesmo assim, continuarem o ritmo da caminhada. Pensava que poderia
aprender com elas as diversas formas de viver, me protegendo dos
momentos difíceis, que comentavam ter-lhes atingidos algum
dia na vida. Queria, da mesma forma, possuir ângulos diferentes
de visão do mundo, que me possibilitassem maior segurança.
Os sentidos, de certa forma,
já se encontravam mais apurados para reconhecer o valor de
uma história de vida. A maior referência de satisfação
que uma criança possui está fundamentada no corpo.
E, o meu corpo respondia com entusiasmo com esses relacionamentos.
O corpo envelhecia e se desenvolvia na temporalidade, além
dos corpos dos meus colegas. Adquirir conhecimento dos velhos era
positivo e satisfatório, mas também queria participar
das brincadeiras com as outras crianças.
Lembro-me, por exemplo, da
festa de São Pedro - um grande acontecimento na vila - um
dia esperado por todos. Era divertido ver a montagem das "barraquinhas"
que vendiam cachorro quente e groselha em vidros coloridos, e a
construção do parque de diversão. Ficávamos
na expectativa de novidades, mas os parques eram sempre pobres,
sem nenhuma novidade e segurança. Gostava mais do carrossel
pequeno e feio, porém pelo meu tamanho tanto para cima como
para os lados, e não pela idade, não podia experimentar
a sensação. Ficava de fora olhando os meus colegas
se divertirem.
Os fogos de artifício
no último dia da festa eram um acontecimento. Íamos
sempre para o terraço do prédio para ver melhor. Ficava
ao lado de dona Hortência, uma senhora que talvez não
fosse tão velha assim naquela época, mas para uma
criança todos os adultos são velhos. Era muito bom
ver os seus olhos brilharem de emoção, com as cores
que reluziam no céu escuro da vila.
O acesso para o terraço
era difícil, e eu sempre gostava de ajudá-la a subir
as escadas, com uma mão segurava a vela, e a outra protegia
a cabeça, com medo dos morcegos que ali habitavam. As pessoas
falavam que os morcegos gostavam de se enrolar nos cabelos, e isso
me causava pânico. Esse era o ritual que se repetiu durante
todos os anos de minha infância.
E o meu corpo se desenvolvia,
e os interesses iam se modificando a todo instante. Pensava mais
agora em estudar "para ser alguém na vida", como
diziam os meus pais.
Lembro-me do Sr. Joel, marido
de dona Leda, que gostava de ler livros de histórias do velho
oeste americano. Minha mãe sempre me comparava a ele, por
também gostar de ler, porém me restringia à
leitura dos livros escolares. Pensava em partir algum dia para um
outro lugar, que me propiciasse novas perspectivas, e o único
meio para isso ocorrer seria pelo conhecimento.
Lembro-me também do
dia no qual dona Ilma se mudou para o apartamento ao lado do nosso.
Uma senhora robusta que dirigia um Fusca laranja. Sempre a achei
interessante, talvez pelo fato de dirigir um Fusca, com uma cor
tão diferente, "naquela idade", que não
era tão velha assim. Lá na vila não era comum
mulheres dirigirem, ainda mais uma "senhora de idade".
Seu marido, era doente e quase não enxergava, indo sempre
do lado do carona no carro, grudado no painel a fim de segurança,
sempre rígido, usando seu chapéu e óculos escuros,
mesmo quando não havia sol. Nunca vi aquele homem sem o chapéu,
chegava a imaginá-lo tomando banho com ele, protegendo-o
da água, como se protege o gesso quando se fratura algum
osso do corpo. Na minha perspectiva de criança, eles eram
muito diferentes, nunca tiveram filhos e moravam sozinhos. Sempre
fiquei curioso com o modo de vida daquelas pessoas. Sempre que ela
ia fazer compras na feira e trazia bolsas pesadas, eu me oferecia
para ajudá-la a subir os três andares com as compras
até o apartamento dela. Certo dia fui convidado a ir até
lá para fazer um lanche, e não sabia ao certo o que
ela queria comigo, pois lá não tinha nenhuma criança
com quem pudesse brincar. Estava acostumado a lanchar, por sinal
gostava muito, na casa de outras crianças, mas não
na casa dos mais velhos. Pedi que minha mãe fosse comigo.
Era uma criança tímida, e estava confuso para enfrentar
a situação sozinho. Então fomos...
Chegando lá, entramos
pela porta da cozinha. Era costume os vizinhos entrarem sempre pela
porta da cozinha. Acho que tinha um caráter informal e receptivo,
uma maneira de criar laços de relação. Minha
mãe conversava com ela, enquanto comia doce de abóbora
em compota com queijo minas. Escutava a conversa dela, dizia que
o convite para o lanche tinha um caráter de agradecimento,
pois me achava uma criança dócil e educada. Queria
retribuir por sempre ajudá-la com as bolsas pesadas de compras.
Isso para mim foi importante porque começava a perceber que
podia ser útil e amado por pessoas que para mim eram tão
"diferentes".
Aquilo foi muito significante.
Desde então, sempre ajudava os mais velhos. Não somente
os meus vizinhos como também todas as pessoas que precisavam
de ajuda. Continuei crescendo com o pensamento em ajudar cada vez
mais as pessoas que necessitassem.A sensação era sempre
boa. Assim, continuava a estudar na escola pública da vila,
e o meu objetivo era ter uma profissão que contribuísse
para a melhoria da qualidade de vida dos "diferentes",
que eram tão iguais a mim.
Desde muito cedo, sempre busquei
ter relações com as pessoas mais velhas, inclusive
os meus amigos eram também mais velhos. Achava os mais jovens
chatos e imaturos. Até os meus namoros eram com garotas mais
velhas, bem mais velhas.
Finalmente, chegou o momento
de sair da vila para estudar "fora", na cidade grande,
que não era tão grande assim. Apesar de não
ser tão longe, tinha características muito diferentes
de tudo o que eu estava acostumado. Tenho lembranças de algumas
regras das pessoas da vila, como por exemplo, todos que iam "pra
fora" como diziam, deveriam colocar a melhor roupa, porque
estavam indo para a cidade.
E foi assim que ingressei na Universidade, o sonho dos meus pais
e a esperança para mim.

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