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QUEM
SOMOS NÓS? O ENIGMA DO CORPO
Se
viemos ao mundo com um enigma viemos também munidos de meios
para desvendá-lo. Não seríamos privilegiados
com a consciência se não pudéssemos compreender
a nós mesmos. Entretanto, é impossível descobrir
todos os segredos, somente os mais relevantes.
Atravessamos uma época em que temos mais
respostas do que bons questionamentos. A informação
está à mão de muitos, porém poucos conseguem
construir o conhecimento. A construção depende de
perguntas corretas. Se não soubermos fazê-las não
chegamos às respostas adequadas.
Um enigma é algo de difícil explicação,
um mistério. Há em nós uma curiosidade imanente
que instiga a vontade da manifestação do desconhecido.
Vivemos a incerteza, e ela nos proporciona o salto à frente.
Viver é ser desafiado constantemente.
Nos desafios cotidianos o corpo é impregnado
pelas ambições, exigências, disputas, equívocos,
julgamentos, preocupações, ilusões. O corpo
capta e armazena o lixo caótico, como uma esponja absorvente.
Muitas pessoas ficam distantes, cegas para a própria identidade
profunda. Então, o corpo para ser ouvido grita por meio dos
sintomas. Quem não suporta a própria fragilidade mune-se
de drogas poderosas para silenciar a dor, pois os sintomas interferem
nos projetos pessoais e precisam ser eliminados. Freqüentemente,
as pessoas queixam-se de dores nas costas: o esconderijo da sombra.
Elas costumam jogar o lixo na lixeira e tampar para não entrarem
em contato. Entretanto, o lixo é carregado, o peso fica tão
insuportável que o corpo protesta. O corpo possui simbolismo
e força. Em cada ponto um universo.
Por que as pessoas correm tanto? Onde querem
chegar? Estas são perguntas com várias direções.
A resposta é uma livre escolha. Muitos buscam explicações
fora do corpo para sanar os tropeços e as dificuldades internas.
Contudo, não ficam satisfeitas com as respostas. Se estivessem
seriam mais harmoniosas, menos sintomáticas.
Infelizmente, vivemos em um mundo ruidoso que
quer calar nossa voz interior, intencionado a nos transformar em
marionetes da mídia sem espontaneidade e autenticidade. As
pessoas vão longe com o jogo virtual e não sabem retornar.
A falta de paz encontra-se no excesso de movimento. Quando há
afastamento do centro há desarmonia. De onde partir? Esta
não é a melhor pergunta, porque gera mais movimento,
em direção a alguma coisa fora. A pergunta correta
seria: como estar?
O corpo é um ponto de referência
no tempo e no espaço, mas não é matéria
densa inerte. Matéria é a manifestação
de energia, que por sua vez, é poder de interligação
entre átomos que constituem a matéria. Energia é
a ação de um átomo que passa para o outro.
Em suma, não somos matéria sólida, sem movimento,
somos energia em ação. Portanto, precisamos cuidar
do movimento.
Atualmente conhecemos outros modelos de realidade.
O mundo deixou de ser quadrado e somente matemático. A ciência
começa a dar seus primeiros passos rumo à poesia.
A poesia utiliza-se de uma linguagem metafórica que tem ritmo,
pulsação. Do mesmo modo, o corpo humano existe porque
tem ritmo e pulsação sustentado por campos eletromagnéticos.
Sabemos que a matéria é constituída por partículas
minúsculas em um vasto vazio do espaço, unidas por
campos elétricos. Em síntese, o corpo é plástico
porque é energia em ação. Não podemos
entender a natureza a não ser por uma linguagem metafórica.
A lógica é restrita a determinados campos do saber.
Isso pode parecer, como alguns de meus alunos costumam dizer: "viagem".
Eles querem dizer com isso que estou fora do âmbito da "realidade"
newtoniana. Felizmente, alguns conseguem embarcar comigo nesta "viagem"
estonteante, fluindo pela arte do conhecimento além dos olhos
humanos.
Um enigma tem sentido ambíguo. Por isso
quanto mais os cientistas se aprofundam na matéria tanto
mais se confundem na complexa rede de interligação
de suas partes. O corpo é o enigma porque está em
processo, é uma estrutura inacabada. A interdependência
e interligação de suas partes formam a realidade essencial
de cada indivíduo. Assim, cada corpo tem a própria
linguagem. Quem ouve o que ele tem para dizer leva uma vida mais
consciente.
Se o corpo é o enigma, a chave para desvendá-lo
deve estar nele próprio. Se assim for, chegaremos a conclusão
de que desde o início já sabíamos de tudo.
O corpo é instância de conhecimento. É na ação
que encontramos a nós mesmos.
Há anos trabalho com pessoas que apresentam
deficiências de movimento. Verifico que as limitações
são mais circunstanciais do que dificuldades corporais em
si. O maior deficiente é aquele que alimenta a própria
limitação a fim de conseguir um sentido. Muitos costumam
marginalizar os próprios corpos em busca da condescendência
alheia. Somente é possível o autoconhecimento quando
o corpo participa da reflexão profunda. Se ele for excluído
não sobra mais nada.
No campo da investigação científica
ainda há um grande dilema: conhecer a ponte que liga a mente
ao corpo. Não existe uma ponte que faça tal conexão.
O corpo e a mente são faces da mesma moeda.
O pensamento científico que separa e isola
era tão marcante que, como fisioterapeuta, trabalhando com
o envelhecimento humano, não podia conceber a possibilidade
de mudança do corpo de uma pessoa de 80, 90 ou 100 anos de
idade. Havia aprendido que a vida reserva a não-mudança
aos mais velhos. Mais tarde fui compreender que a vida não
tinha nada a ver com isso. Era o mecanicismo científico que
encarcerava as pessoas mais velhas atrás das grades etárias.
Existe uma sabedoria inerente ao corpo que a ciência cartesiana
não elucida. E mesmo que dê uma resposta será
somente mais uma resposta.
Quando escrevi o livro "Envelhecer: histórias,
encontros e transformações", minha intenção
era mostrar que envelhecer é um processo de transformação
do humano, portanto circunscrito a todos nós, independente
da idade cronológica. Infelizmente, algumas pessoas com modelos
fracionários de conceber o mundo ainda insistem em dicotomizar
corpo e alma. Costumam dizer: "meu corpo pode ser velho, mas
minha alma é jovem". A frase que ouço com freqüência
nada mais é do que um preconceito etário, semelhante
ao preconceito racial quando dizem: "ele é negro mas
com alma branca". Isso é completamente despropositado.
É importante dizer que não precisamos nos esforçar
para ser. Pois o ser autêntico não se esforça,
ele é. Somos mais que pensamos. Portanto, classificar o corpo
pela idade cronológica é um absurdo, é não
respeitar o humano em sua unidade.
Atualmente vivemos a era do corpo jovem, forte,
saudável, belo. Vivemos também a era da estética
sem ética, mudando os contornos do corpo como decretam as
imagens virtuais. A mídia preconiza um modelo e as pessoas
obedecem sem questionar. Mais uma vez temos respostas sem perguntas.
Quem não sabe questionar tem medo de ficar à deriva,
receiam sucumbir ao ridículo dos "sem-forma". Acredito
que seja por esse motivo que as pessoas sentem o "pânico
da idade".
Existe um padrão de beleza? Prefiro dizer
que a beleza está na característica insubstituível
de cada um. Não acredito em um único padrão
de beleza. O que procuramos está além da forma física.
O que buscamos talvez seja a nossa história perdida, saber
o que fazemos aqui.
Este livro pretende mostrar que não somos
corpos isolados no tempo e espaço, mas uma unidade complexa
em convivência. A vida é uma arena de aprendizado.
Para adquirir a lição temos que prestar atenção
aos sinais e ritmos da natureza. A natureza é cíclica,
portanto, o corpo é processo criativo, é potencialidade
latente, uma fonte de recursos para atingirmos a nós mesmos.
Como terapeuta do corpo, sinto-me como o artista
que pinta ou exerce a arte da escultura. Até então
não havia compreendido que o processo terapêutico é
um manancial de possibilidades artísticas. Um corpo é
sempre moldado pela mão que o toca. Toda arte é a
representação da essência do artista. Como escreve
Jean Lescure: "o artista não cria como vive, mas vive
como cria". Se todos nós estamos unidos e somos sustentados
por um campo eletromagnético, posso afirmar que sou o escultor
e a obra ao mesmo tempo. Isso me dá vida e me proporciona
saber quem sou. É na arte do viver que me descubro, procurando
facilitar o processo de descoberta do outro. Porém, não
sou o protagonista, mas co-participante do ato de criar. Carrego
em meu corpo um pouco da história de cada pessoa que atendo,
e sei que elas levam consigo uma parte de mim.
A obra de Alberto Giacometti, escultor e pintor
suíço, nos absorve pela noção que o
artista tem da forma. Giacometti, homem solitário, em seus
desenhos e esculturas finas e alongadas, evidencia a essência,
a vitalidade que reside em cada um. Por meio de sua obra ele se
interroga, e nos faz a pergunta adequada "quem somos nós?"
No limite do visível ele define os contornos,
tenta desvelar a semelhança no outro, a dignidade do humano,
a essência, talvez a luz. A obra de Giacometti me remete a
uma resposta: Não somos cruéis. A crueldade humana
surge na ausência do amor. Ele consegue ver a beleza em tudo
porque capta a força coesa da natureza humana em sua obra.
Como escreve Jean Genet:
a arte de Giacometti não é, portanto,
uma arte social por ele estabelecer entre os objetos um laço
social o homem e suas secreções -, será
antes uma arte de mendigos superiores, a tal ponto puros que apenas
o reconhecimento da solidão de cada ser e cada objeto os
uniria. "estou só", parece nos dizer o objeto,
"capturado numa necessidade contra a qual você nada pode.
Se sou apenas o que sou, sou indestrutível. Sendo o que sou
e sem reservas, minha solidão conhece a sua.
Como terapeuta do corpo vejo-me como Giacometti.
A sensação aflui às pontas de meus dedos, a
paisagem do corpo se descortina, e as minhas mãos vivem,
mais do que meus próprios olhos.
Às vezes sinto-me solitário com
as pessoas que toco, uma distância de mim mesmo. Tocar é
adentrar um espaço silencioso. Coloco-me distante porque
a solidão me oferece perspectivas. Posso sair do meu espaço
para dançar ao ritmo do corpo que está sendo tocado.
O polegar apalpa o músculo e o gira, organiza, desperta,
dando à forma mais consciência de vida.
É um privilégio para mim quando
uma pessoa permite que eu a toque, pois posso sentir minha essência
sensível e humana. Não podemos tocar sem sermos tocados
ao mesmo tempo. Dessa maneira, construo o meu próprio corpo
e o do outro, dando forma a partir de minhas mãos que intenciona
um novo corpo, com mais possibilidades.
Uma pintura só é subentendida porque
existe o branco da tela. O invisível se mostra no branco.
Criar é uma passagem do invisível para o visível.
O corpo é como a tela branca, permite a marca, transformando
a impressão em vestígios de história. Por isso,
a responsabilidade do toque. O movimento de um corpo tem que respeitar
o movimento do outro. O encontro dos corpos é um momento
ímpar que não pode ser perdido. O tempo é fugidio,
e sei que nunca mais terei aquele corpo novamente. A cada encontro
uma novidade e uma possibilidade aberta ao autoconhecimento.
Enquanto Giacometti esculpia o bronze mudo, morto,
eu moldo obras vivas, inacabadas. O meu trabalho é também
tentar captar a essência de cada um que toco. Entretanto,
existe uma diferença entre o meu trabalho e a obra do artista.
Ele cria a obra e a deixa só. Ela apenas serve para ficar
ali, aos olhos de quem possa contemplá-la. O corpo vivo,
por outro lado, precisa continuar, interagir, fazer passagem. O
corpo me serve e eu o sirvo. É no diálogo dos corpos
que nos fazemos.
Tocar não é só sensação,
é embrenhar-se no desconhecido. As dobras de um corpo dizem
muito, porque a vida guarda nos sulcos da pele os segredos do tempo.
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